domingo, 31 de janeiro de 2010

R e t a l h o s de E m o ç õ e s: CANTIGAS DO BERÇO MEU: 20 ANOS DE CONVIVÊNCIA COM O AUTISMO

R e t a l h o s de E m o ç õ e s: CANTIGAS DO BERÇO MEU: 20 ANOS DE CONVIVÊNCIA COM O AUTISMO

16 MIL ALUNOS ESPECIAIS FORA DA ESCOLA EM PORTUGAL


16 mil alunos fora da educação especial
por PEDRO SOUSA TAVARES


A polémica classificação que determina quem precisa de apoio fez baixar de 50 para 34 mil o número dos alunos abrangidos.

Em ano e meio, quase 16 mil alunos saíram da educação especial nas escolas públicas, que prevê um acompanhamento específico dos professores. Um dado que resulta do balanço "Escola Inclusiva", do Ministério da Educação (ME), que reacende o debate sobre a forma como se identificam os alunos com necessidades educativas especiais (NEE).

A descida coincide com a controversa aplicação às escolas da Classificação Internacional de Funcionalidade para Crianças e Jovens (CIF-CJ) - um instrumento de sinalização de deficiências físicas e cognitivas (ver P&R).

Em Junho de 2008, estavam na educação especial 49 877 alunos do básico, 3,9% de um universo de 1,28 milhões. O balanço mais recente aponta pa- ra apenas 33 891 (2,85%) entre 1,24 milhões. Destes, 31 776 estão integrados em escolas normais e 2115 são estudantes de estabelecimentos públicos especializados. E as projecções, com base na CIF-CJ, são de existirem apenas 23 mil alunos com necessidades especiais (1,8%), pelo que a descida pode continuar.

Os críticos deste sistema avisam que há milhares de miúdos com necessidades, como os que têm dislexia, que segundo os médicos atinge 12% das crianças, que estão abandonados nas escolas (ver texto secundário). Isto porque, alertam, aquela forma de classificar as necessidades é confusa, deixando alunos que precisam de acompanhamento fora do ensino especial.

De acordo com os críticos, Portugal só dá apoio a 2% dos alunos, quando as médias internacionais apontam para 8% a 12%. "É impossível que o nosso país só tenha 2,6% de alunos com necessidades educativas especiais", afirma Miranda Correia, do Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho. "E são contas com consequências: nos EUA, os governos federais dão 15% a 18% das verbas do ensino para a educação especial. Nós damos 3,4%."

Para ilustrar a sua convicção de que a CIF-CJ, sobretudo aplicada pelos professores, é inadequada, o investigador cita um estudo da sua autoria: "Peguei num exemplo de aluno, criado pelo próprio ME para testar a CIF, e enviei-o a várias escolas", conta. "Os diagnósticos variavam entre o caso ser 'muito grave' e 'não elegível' para apoio."

Mais pacífica estará a ser outra componente da reforma do ensino especial: a transferência para a rede pública de crianças institucionalizadas. Desde 2005, a percentagem de estudantes nessas escolas caiu de 0,4% para 0,2%. Restam 2392 casos, que o ME espera integrar na sua rede até 2013.

As instituições (71 até agora) são convertidas em centros de recursos da inclusão (CRI), apoiando as escolas com terapias e especialistas. E, segundo Rogério Cação, secretário-geral da Fenacerci, uma federação de instituições especializadas em deficiência intelectual e multideficiência, o balanço da cooperação "é razoável". O responsável diz ainda que a integração dos alunos deficientes na rede pública é positiva, mas denuncia que as intervenções aprovadas pelo ME "são, regra geral, inferiores às que são pedidas pelas escolas".

Tags: Portugal

Fonte: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1483060

RECANTO DAS LETRAS


Amigos,
quando posso, continuo escrevendo poesias sobre o meu filho e o autismo.
Visite
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/silvaniamargarid

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

...MÃES NATAL...


Mãe que diz certo diz em certa hora
situação que ninguém pudera imaginar
pelos quatro ventos do paraíso dito
atelhadas aos céus à cura imaculada.


Mãe que diz certo diz em hora certa
Que filho amado é sempre sonhado
Que a sua eficiência torna-se gloriosa
Pois traz um destino especial
de amor a cumprir!

Que todos os que habitam em plano
no suave intérrimo especial
usa imagens, comparações, histórias
utiliza freqüentemente a arte de interrogar
prenuncia a arte de curar.


Mãe que diz certo interroga em hora certa
alberga o filho no próprio coração
onde se vê obstáculo
nas mágoas que trilha
sabe que nunca pode parar.


Ninguém lhe conhece
as penas cravadas em alma
Sorri, participa,
em listas virtuais,
angaria frutos de outros amigos iguais.
A fraternidade é sua mira maior
Pois, tenta, imensamente, tenta;
mesmo, por momentos, ser feliz.


Mas somente ela, a cada instante,
percebe o momento certo e a hora certa,
de ser mãe de cada labuta,
de descrever cada nota sua,
de desenvolver cada passo seu,
em direção da expressão de Deus.


Mãe que diz certo diz em certa hora
semeia e espera que as sementes germinem.
um pequenino talo de evolução.
O sinal de luta e de nova partida,
é um precioso dom de vida
É o limite ultrapassado, ao limite esperado
Da sensata progressão.


Que sua vida é diferente,
ninguém duvida,
ninguém ousa indagar,
mas não menos maravilhosa,
pois é um coração que carrega muitas cicatrizes,
e se alguém, pouca gente se interessa,
há sempre muito o que contar.


Mãe que diz certo se acomoda em hora certa
cria laços que não podem ser quebrados
que se tornam mais fortes com o passar do tempo
e se encobrem às mais altas e sensíveis habilidades.


Mantem registros médicos atualizados.
Inclui avaliações, receitas médicas
e números de telefone
de pessoas importantes;
médicos e amigos de apoio
das terapias variadas.


Mãe que diz certo diz em certa hora
situação que ninguém pudera imaginar
pelos quatro ventos do paraíso dito
atelhadas aos céus à cura imaculada


Abre os olhos amenos,
azuis, marotos
escuros e tenazes
verdes esmeraldas
as mais multicores
e imploram em silêncio

um raio de luz...



Mãe que diz certo diz em certa hora
Ajoelhadas em seus corações

Ora aos céus e implora
“Jesus, é Natal...

Seu Nascimento e Sua renovação
Que filho amado é sempre sonhado
Sabemos que Você sabe:
Por tudo isto e por muito mais,
Cura este filho meu”!

VOCÊ ESTÁ NOS BRAÇOS MEUS...


Reverencie e memorize as páginas originais
Para abrigar os destinos originais
Faça riscos nos palácios encantados
Não pense que os palhaços
não têm voz de solidão
Acenda os postes no lugar
dos lampiões do seu pequeno
grande coração
Desafie os insensatos...
sem perder a evolução

Renuncie às vãs cobiças materiais
Erguidas do ódio, da revolta e do chão socado
Procure os indefesos convidados especiais
Nas figuras pinceladas devidamente arranjadas
E aprenda que as pedras são as primeiras construções
Berços de esperanças de lutas imortais

Repense sua vida enquanto é tempo
Mesmo com o refletir estereotipado
Seu viver constante e imutável
Promissor ou palpitante, revestido de louvores
Protegido e amparado por ancestrais perecidos
Centenários de emoções dos tempos já vividos

E agora, após vinte anos, receba a fina flor
Dos milagres do menino cansado que não cresceu
Lembre-se de que: a ânsia de ler e saber
No escuro das noites molhadas de chuva
Nas lindas noites prateadas da lua
O autismo e você estão nos braços meus...

bhz, 29 de janeiro de 2010

Homenagem ao meu querido irmão Vitor, pelo seu aniversário...esteja ele aonde estiver...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

CANTIGAS DO BERÇO MEU: 20 ANOS DE CONVIVÊNCIA COM O AUTISMO





De repente, esvazia-se o espaço e descobre-se a flor. A flor cresce e descobrimos os frutos. Assim aconteceu comigo e com meu filho André Luis Rian, quando ele fez vinte anos. Rian fez vinte anos de tratamento do autismo, com a continuidade com as terapias e duas escolas especiais com métodos específicos, as viagens que ele, eu e meu marido fazemos todos os meses do ano, tornaram-se efetivos para o desenvolvimento saudável e sustentável do meu filho. Dizer que ele não evoluiu, seria negar a mim mesma. Ele continua na alfabetização, na dieta especial e no tratamento fitoterápico. O seu autismo continua o mesmo, mas ele já consegue formular frases do tipo:


“Nóis bamos patiar”;
“Papai foi pabaiá”;
“Taol taiu” ;“Pamia taiu”;
“Tuem oi boboia”; “Te Ito”
“Avião, ipopoto não”;
“Toma baño te”;
“Mutitá te",Popeto Taio, Epe Pepelez, “neonado”
(Roberto Carlos, Elvis Presley, Leonardo)


E o mais emocionante é ESCUTAR o Pai Nosso, quando oramos com ele:

Pai noto que tá no Téu
Tantifitado teja o voto nome
Benha a nóis o boto Reno
Atichm na Teia comu no Téu
Não no deixei tair em tentatão
E .....do mal
Amém...


Ou quando canta “Carinhoso”

Meu totação
Não tei puque
Babi fetiz
Cuando te vê
E meu totóio
Picam toindo
E peãs uias
Bam de segindo
Mas memo atim
Fope de mim...

E a vida continua... As frases estão aumentando... E eu busco um amor sem dor. Tudo é motivo de incentivo e estímulo para Rian. Enquanto vem lá do Céu, ainda, a canção de ninar, eu compreendo o quanto cresci nestes anos. Fiz-me autodidata, compreendi códigos que somente eu como mãe do André poderia compreender...
A base do trabalho com as crianças na Educação Especial consiste na estimulação familiar. Uma etapa primordial em que os estímulos aplicados de forma adequada, controlada e planejada garantem as condições ideais para a capacitação das inteligências racional e emocional que acompanharão o autista durante toda a vida.

As implicações sociais do contexto familiar, no qual a criança especial está inserida são de suma importância para a ampliação do entendimento, acerca de sua expressão corporal e suas caracterizações no meio social (PIAGET, VYGOTSKY, 1979)

A fala do meu filho está em mudança constante e a ampliação do seu entendimento cognitivo nos mostra que o tratamento não foi em vão.
Já consegue discernir o mais velho, o mais novo, o do lado e último. Já consegue dar sequência às palavras.
NADA FOI EM VÃO...


Este texto continua...

AUTISMO É UM PROBLEMA DELICADO


Autismo é um problema delicado, que muitos pais têm dificuldades em aceitar e tratar da forma correta. Conheça melhor as faces dessa doença.





- Comportamentos repetitivos
- Interesses e inteligência
- Tratamentos específicos


O que os pais podem fazer?

Hoje em dia já se sabe que o autismo é congênito: o indivíduo nasce com ele. "Quando a criança é muito pequena, essas alterações são sutis. Alguns pais percebem que o bebê não gosta de ficar no colo da mãe e não reage bem ao carinho" explica o Dr. José Salomão Schwartzman, neuropediatra em São Paulo.

Geralmente estes bebês preferem ficar deitados, sozinhos e, quando alguém tenta fazer um contato, eles ficam agitadíssimos ou começam a chorar. Ainda pequenos, podem se comportar como surdos, algumas vezes reagindo ao som, e outras não. "Em geral essa é a primeira queixa dos pais: a suspeita de que o bebê não escuta bem", afirma o neuropediatra.

Como saber se uma criança é autista? Existem algumas alterações que podem variar em grau (desde os casos mais severos até os mais leves) que indicam a condição:

- distúrbio de comportamento, com uma tendência para a estereotipia, isto é, para a repetição incansável de determinados comportamentos, como hábitos motores repetitivos;

- dificuldade na comunicação interpessoal, em que o indivíduo não consegue se integrar socialmente;

- distúrbio da comunicação, em que a criança não fala nada ou diz coisas de uma forma totalmente atípica, não desenvolvendo a habilidade de iniciar ou manter uma conversa.

Comportamentos repetitivos

O comportamento dos autistas apresenta grande tendência para a estereotipia. Pode ser na forma de falar, por exemplo, em que eles decoram um trecho de uma propaganda e a utilizam incansavelmente, cantam músicas ou falam coisas que não tem fazem parte do contexto naquele momento.

O estereótipo mais comum chama-se "flapping de mãos", em que o autista permanece abanando as mãos na altura dos ombros. Muitas vezes ele fica girando em torno de si mesmo, rodando objetos ou passando a mão em uma determinada textura o dia todo. "Todos os comportamentos que os autistas possuem, nós também temos. A diferença é em grau: nós conseguimos parar quando queremos e não o temos de forma tão constante. O que merece atenção é a persistência dessa estereotipia" alerta o neuropediatra.

Em relação à família, o autista não mantém uma interação muito boa. Ele não atende aos chamados da mãe ou não quer ficar ao lado dela. Quando bebê, a mãe se aproxima do berço para pegá-lo e, ao contrário das outras crianças, ele não dá atenção e pode até ficar bravo. Os pais tentam abraçar a criança e ela não só evita o abraço, como até empurra a pessoa.

Antigamente diziam que a culpa era dos pais, que eram frios e que não sabiam amar o filho. Hoje se sabe que a criança é quem não responde ao carinho. "Se você tenta abraçá-la, ela empurra, se não olha nos seus olhos, obviamente você se torna diferente. Mas não quer dizer que os pais não são afetivos. O filho é quem está com problemas", lembra o médico.



Interesses e inteligência

Existe um tipo de autismo, chamado de Síndrome de Asperger, em que a pessoa geralmente apresenta uma inteligência desenvolvida, fala relativamente bem e tem uma memória prodigiosa. Mas assim mesmo pode apresentar o "flapping" e a estereotipia se manifestar com uma tendência a se dedicar a pouquíssimas áreas do conhecimento. Por demonstrarem alguma habilidade especial, quando pequenos chegam a ser confundidos com os superdotados. "Eu já vi crianças com essa síndrome sendo apresentadas em talks-shows como gênios. Elas se interessam muito por animais pré-históricos, línguas mortas ou decoram listas telefônicas, não porque são gênios, mas porque só se concentram naquilo" conta o Dr. Schwartzman.
...
Tratamentos específicos

O tratamento do autismo deve começar cedo para que não haja uma defasagem muito grande em relação às outras pessoas. Trabalham-se as áreas prejudicadas, dando prioridade aos problemas específicos. Quando pequenos, alguns pacientes precisam de fisioterapia. Depois de algum tempo, se houver defasagem na fala um profissional da linguagem entrará em cena para ajudar a desenvolver a comunicação da criança. A socialização tende a melhorar se ela puder freqüentar creches, colégios ou até mesmo escolas especiais, dependendo do grau. Normalmente os problemas melhoram com o tempo e, nos casos mais severos, existem medicamentos que auxiliam no tratamento.

O que os pais podem fazer?

Antes de tudo, os pais precisam entender o que o filho tem, buscando aprender mais sobre esta condição. "Aceitar que o filho é autista é um problema sério, assim como aceitar qualquer condição crônica severa que traga múltiplos prejuízos" afirma o neuropediatra. Alguns pais se sentem culpados, rejeitados ou acham que estão fazendo algo de errado. Eles conseguirão se orientar e ajudar seu filho se procurarem qualquer profissional que trabalhe com autismo: psiquiatras infantis, neuropediatras, pediatras ou intituições específicas, como a AMA.
Com a ajuda da família e dos amigos, o autista se desenvolverá, vivendo melhor e mais feliz.

Elizabeth Thiezerini

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

AS FOTOS, O CELULAR E O COMPUTADOR



Passear em lugares distantes
É muito bom e confortante
Ficar em hotéis e pousadas
Torna-se para meu filho
Alegria constante

As velhas máquinas de fotografia
Foram aposentadas em nossas viagens
No escuro das noites molhadas de chuva
Viajamos também nas poeiras das estradas...

Entre o cheiro do campo e a fixação da paisagem
Entre as cachoeiras e as montanhas de Minas
Entre as praias, cidades e mil passos esparsos
Lá vamos nós com o celular...

E fotografamos as sombras dos arvoredos
As imponentes arquiteturas
As casas rodeadas de varandas
As noites prateadas de lua...

São tantas fotos acumuladas e variadas
Que fica difícil escolher o sacro simbolismo familiar
A naturalidade das encostas daqui e de lá
Roteiros sagrados, magia das policromias

Mas como é difícil sublimar o caminho das fotos
Contar histórias através dos retratos
O celular não consegue se entender com o micro
Que arte enfileirada com jeitinho,
Poderia ser macro em nossas memórias originais...

ESTRANHO VÔO


Tudo voava.
Sim. Tudo voava.
Como abelha buscando flor.

Tudo girava.
Girava?
Sim, tudo girava.

Pratos giravam querendo pessoas...
A máquina de lavar girava

tentando limpar sujeiras da roupa.

Lá para lá e voltava para cá.

Os meus olhos também.
Momentos únicos de excitação.

O lustre balançava.
E, algumas vezes, o seu balançar

era tanto, que as lâmpadas se

desligavam, e vários pedacinhos de cristal

caiam nos meus pés, no meu corpo,

nas minhas mãos e olhos.

Mas não doía, quem disse que doía?
Pedaços de cristal.
Quem disse que caía? Caía?
As pontes e os viadutos eram

todos geométricos, e aquelas formas

brilhantes, me atraiam cada vez mais.

Com o contraste do brilho do sol,

elas se tornavam azuis, verdes,

brancas e metacores.

Quanto mais depressa o carro andasse,

mas excitada ficava.
Era bom. Gostava muito

de andar de carro.

A velocidade me atraía.
Conseguia distinguir a cor da terra,

as cores das campinas verdejantes,

o mato seco e mato molhado.

Conseguia enxergar cobras, lagartos,

bichos de todos os tamanhos.
O tempo passou bastante,

mas até hoje, gosto da

velocidade do carro.

Na verdade, gosto mais.
O chão mostrado é chão pisado.
O carro pisava, ou melhor,

passava no asfalto quente,
tentando aquecer e mudar minha conduta.

Deveria eu me aprumar?
Deveria eu atender os

convites que me dirigiam

constantemente?

Seria eu uma trapaceira, um alguém que

gostava de correr de vento em popa,

da brisa ao céu, do céu ao nada,

nas minhas imaginações.

Adorava balançar meu corpo. Era meu?
Sim, era meu... As pernas e cabeça que

balançavam eram minhas...
Balançava, balançava e balanço.

Adorava revirar os olhos.
Revirava e reviro,

mostrando a mim mesma

que sou do jeito que sou.
Bater palmas, enrolar as mãos,
empilhar cartas de baralho,
bater ponto nas minhas

bonecas de preferência.

Nada pode sair do lugar,
na minha alimentação,
nada pode mudar.

Eles não sabem ainda,

mas tenho uma memória

fascinante, leio três idiomas

e nunca fui à escola.

Entendo o que significa cada palavra?

Claro que entendo.
Eles não sabem, pois

não conseguem arredar

o pé para o meu mundo.

Não conseguem descobrir as minhas utilidades.
Eles dizem que sou super inteligente.

Sou mesmo. E dizem: olha que

interessante, ela adora futebol,

notícias, repórteres, sempre os mesmos

programas; adora catálogos, revistas,

jornais, pasquins, folheando-os

alternativamente.
Ela estará interessada em que?

Quando sou contrariada,

bato a minha cabeça sem

dó e nem piedade.
Mordo minhas mãos até

o sangue jorrar.
Adoro mercúrio. Mordo nas minhas mãos

e meus dedos cheios de calos já estão

à amostra do início do alejume.

Ah! Minhas características.

Impossível descrevê-las.
São milenares, são ousadas,

são diferentes.

Adoro a vida de minha maneira muito especial.
Quero viver de uma maneira muito especial.
Sou uma autista,

uma autista ou altista?
Altista ou altruísta?

Que nada! Sou autista.

A compulsoriedade será o meu futuro de melhora.
Sou autista e finjo que gosto.
Confesso aqui em pleno

julgamento de mim mesma.

Não gosto de ser autista.
Que fazer? Não suporto a

acústica do mundo.
Devo imediatamente

tapar os ouvidos.

Gostaria de ser artista.
Artista do meu mundo, das minhas

faltas de imaginação.
Artista que caí e levanta.
Artista que pega o ônibus e não se cansa.
Artista que escreve e trabalha.
Artista que perde o emprego e

depois batalha.
Artista que tem cartão de crédito da C&A

para comprar roupas bonitas,

de acordo com sua escolha

preferencial.

Ha, Ha, Ha, Ha,
Como é esquisito a linguagem contativa.
Pensam que a confundo com a conotativa.

É só olhar no dicionário e aprenderão.
Que coisa!!!!
Quero ser investidor, ter

títulos de capitalização,

seguro de dívida familiar,
proteção de perdas e roubos.

É terrível para mim ser um cabide.
Cabide abandonado e rotulado.
Ninguém, mas ninguém

quer me dependurar.

E dizem: ela não quer participar do

mundo dos vivos, do mundo de cá.
Mentira! Mentira! Mentira!
Quanta ignorância, pois se

acabo de dizer que não

quero ser cabide.

Egocêntrico Amor? Talvez.

O que quero é sair desta gaiola.

SER POETA!!!!


Ser poeta
é ter tudo e não ter nada
é ter palavras e calar no silêncio
é ter alegria e alegorias
de uma vida musical.


Ser poeta é sentir dores
dores de amores
de fervores no peito
que não é angelical

Ser poeta é mestre
e aprendiz
trazer de si
o dom de orar
por todos que caminham iguais

Ser poeta é ter tudo e não ter nada
É ter amores sem bosquejos
é ser dolores sem grandeza
é inspirar filhos de Deus

Ser poeta é vislumbrar
o céu, a terra, o mar e a natureza
tendo a certeza de que na vida tudo passa
é se sentir solitário nas palavras que vão
e nos diplomas que saem

Ser poeta é chamar,
Sheila, onde você está?
E você André Luís, por que se cala?
E Joana, se tiver que me levar
por passeios infinitos, leva-me
nos grilhões do ar,
não merecendo o altar
mas volitando o futuro eterno.

Ser poeta é gritar na imensidão do vazio,
e chorar por filhos não curados
é tremer nas bases da esperança
ou pelas perdas do bem querer.

Ser poeta é sorrir para as palavras
é ter em mente que o amanhã
são olhos rasos d'água
e que a viagem do futuro
somente a cada um de nós pertence

Ser poeta é ser humano
é ter medo do barulho
da mamãe que parou de chorar
e do toque dos sinos
das madrugadas e das ilusões


Ser poeta é ter a vida para viver
é um mundo de esperanças
é ter um sentido pleno de nostalgia
e que acompanha o amanhecer

é a música célere que toca
a busca continua da cura
do autismo abençoado
mitigado e doado
vívido e aprendido
com as airas dos menestréis

Ser poeta é cuidar do coração
E da nossa vida
do amor idolatrado de outras vivências carnais
do carma santo, do toques benditos
dos dramas que o Criador nunca inventou...

Ser poeta é ter Deus na imensidão
do coração, mesmo doído,
que precisa de passes urgentes,
pois quem é poeta
precisa continuar...

Joana, André Luís, Sheilla...
Ser poeta é ter tudo não ter nada
É esperar soluçando o passe bendito
que coração indelével precisa receber
urgente, sempre que puder
e que for permitido

Ser poeta é amar doutrinas
precisar de passes
Passes mediúnicos
Cuidados, infinitos
Valorosos e medicinais

Ser poeta é ser poeta
Que pede sempre em poesia
Mesmo que
Sua alma aflita inconstante
Mas que a todo instante
Mesmo com fluídica sensatez
Declama versos da essência sofrida
“Sou Seu poeta “Divino Amigo”...
vim em seu nome dizer reversos
sou simples poeta de Deus”.

APRENDI A AMAR O AUTISMO




Um dia, aprendi a amar...
Achei que sabia amar...
E saí pelo mundo a conspirar
contra o meu peito
arfado e arfante...
o precioso amor...

Saí e disse a flor que pisei...
Oh! desculpa-me,
flor, flor
Você brilhou no sol,
suas pétalas caíram
e você se esqueceu
de desabrochar...

Um dia, aprendi a amar...
Lá nas contas
das esperanças
de um dia melhor...

Aprendi amar
morros, subidas,
colinas e descidas...
igrejas e romarias,
para o louvor
ao Senhor do
Novo dia...

Aprendi a amar
o júbilo autístico
o tempo infinito
em permanente especialidade
aprendizado
Mas quem era o objeto
do meu estudo de amor...
Era o meu próximo,
Era o autismo
Seja ele como for...

PAI ESPECIAL



"MÃE,
escrevo-lhe,
sorrateiramente, para me ajudar a pensar...


Não falo muito, pois tenho aquela fama de sizudo,
de sério; extrapolar meu jeito, seria um trejeito,
seria um perigo, para minha expressão de fortaleza.


Mas é hora de decisão.
É hora de pensar. É hora de agir.
O tempo está lá e é meu inimigo,
ou seria amigo corrigindo outras paragens?''


"Sou pai, amo meus filhos
Mas que temos feito desde então?
perguntam o que estão ao meu redor.


E ainda, mãe, reflito:

Não estaria você, querido amigo,
meio a turbilhões de pensamentos,
um pouco afoito?


As invovações pedagógicas e psicológicas,
e as diversas opções de melhora têm sido,
com você, companhias neste processo de dor.


''Não se esqueça da mãe do seu filho."
Eles dizem.


"Isto não responde às minhas indagações:


"Mas por que ter um filho deficiente?
Por que ser e situar-se como pai
de uma criança que está especial?
E você, mãe, em silêncio,
fica fechada e silenciosa.
Não contra-argumenta
os meus lamentos.
Não sugere o meu choro,
não sugere melancolia."
Por quê?


Nada me diz que você irá mudar,
irá ficar depressiva.
Você tinha este direito ou não quer!!??


Eu fico depressivo.
E carregado de metáforas e vocábulos
na minha poesia funesta, digo:
Você, mãe, é sempre estranha, é muito tranqüila.


''As vezes, me incomoda este seu jeito de ser.
Você não tinha que sofrer?''


Tranqüilamente você me diz:


"Que nada!! Tudo passa!!
Estamos felizes por que temos que ser felizes!!
Longe de mim, querer ser diferente"


E ainda, para melhor e minha inspiração:


Quantas vezes, ele,
o meu pequerrucho
abriu a boca para dizer,
o quê?
o silêncio trêmulo
do momento do encontro;
falar para quê
na verdade,
ele nunca disse nada.


Seria eu também
o pai de uma criança celestial?
sou anormal?ele é angelical?
ele está especial?
Quanta confusão!!! Meu Deus!!

Poderia dizer, sem medo de ser feliz,
não gosto do nada especial!!
Gosto do comum, da rotina, do dia-a-dia,
chupar laranja com casca e bagaço.
para ter dor de barriga.
Não cheguemos a tanto,
saio do desvario
a sensatez me avisa.


Pensar em Bueno de Rivera
me faz chorar.


Ele dizia assim:
"Fecho os braços e nada,
estendo as mãos: ninguém.
Não é anjo ou espectro
nem é corpo, é a luz
me chamando: filho"


Eu completo assim:
''Mamãe sempre"
''Papai a cada instante."


Sim, estou especial,
não por ser especialíssimo em algo.
Pelo contrário,
a polivalência e o lato sensu fazem
parte da minha vida.
A divisão de departamentos, dos meus valores.


MÃE,
estaria nosso filho em delírio?
ou ele é Beleza Mortal e Infinita?
no entanto,
arranca dos meus caules mais ocultos
os sentimentos mais exasperados...


MÃE,
Seria ele um lírio de versos,
verdades filosóficas
de um passado distante?
por que tão deficiente?
sem estatuto para a normalidade?
o vazio que paira acima de tudo?
além do tudo e é eterno?


PAI,
Na seara do Pai-Deus
Não existe deficiência
Existe realeza da diferença
de si mesmo.
Há escolas, há artistas
há formas,
sem formadas formas,
nem praxes, nem estatutos
para o que faz o Beija-Flor.


PAI,
A arte é azul.
Imortal, Infinita,
Cada pessoa vale por si mesmo,
Isto é deficiência?
Ou benemerência,
de Quem muito nos quer bem?
Quando pensar em Bueno de Rivera.
Separe caminhos:
Poesias e poesias não fazem único poeta.


PAI.
O mesmo Bueno de Rivera
disse:
"Meu irmão, olha o céu
O arco-íris da aurora
surge através do pranto...
Sobre os homens futuros
A alvura da fé, a voz dos poetas."
e diga ao seu filho sempre,
que o fará feliz:
"Sou especial porque estou PAI de você."

A CRIANÇA E A BRISA


“Ouviram dos” quatro cantos do mundo
“Em margens plácidas”
onde as ondas se espraiam
e as garças dão meia volta
com pescoços compridos, a espreitar,
paisagem amena e suave,
do vento a bailar
e brincam na beira da praia,
“a força dos campos, o céu estrelado”
Para sentir uma brisa suave,
“idolatrada, salve, salve”

“Se penhor da igualdade”, naturalmente,
traz garças e aves diversas,
que a brisa consegue conquistar
“com braços fortes”
“O seu seio, o seu peito”, à própria vida.


E lá vai a brisa,
Aos quatros cantos do mundo,
Erguendo sua música suave de vento
“seus risos, lindos campos, têm mais flores”
Por onde passa, “os bosques têm mais vida”
Na conquista de todos os amores.

Noites e madrugadas afora
no caminho das estrelas
E na solidão da escrita
A brisa contida, pergunta...
E na trajetória do destino
E no reflexo dos espelhos
Conheceu um alguém
E, indagou, aflita,
Quem é quem?


Quem é este ser tão especial?
Que bate em meu ombro
E não se espanta
E me deseja com os olhos
Ao esvoaçar dos seus cabelos
As mãos serenas a brincar
Noites e madrugadas felizes
Que pureza é esta?
Que parece brincar com as flores
Da sua mais amada esperança
De onde ele vem e para onde vai.
Não sabemos, responderam
“Terra adorada no mais raio vívido”
Ela só existe se a quisermos
Quando eu, feito criança assustada
Escondo-me de você, de suas perguntas diretas
É somente para ver se os preservo submersos
Meus medos mais sombrios, minhas portas mais secretas
Não me assuste brisa, amo você, preciso de você....

A brisa noturna que construíra
gigantesco canteiro de obras
tinha-se ido, não poderia ficar
deixou criança com seu destino,
ergue a cabeça, com o olhar.
Sorri, e responde confiante,
Vou deixar-lhe pedaço de mim,
Para você se eternizar
Aos poucos, toda a vegetação da vida
desapareceu, devorada pela
espessa neblina da manhã.


Agora, Brisa e Criança
suas almas se unem
E formam imagens não distorcidas
A criança e a brisa voam
Pelo infinito universo das letras.
Na leveza do efêmero
No amparo das nuvens
Não temem o “solo gentil”
E sol, dono do saber
E a liberdade, propriedade do querer
Ajudam
Este compasso de amor,
Às vezes, se escutam em música inédita
“ao som do mar e à luz do céu profundo”.



Poesia pertencente à Silvânia Margarida
Paráfrase de pequenas partes do Hino Nacional da República Federativa do Brasil

ANJOS DE BARRO


Encontraram-se um dia,
nos peregrinos momentos de outubro,
uma mãe, um filho, uma pérola,
uma lágrima e uma estrela.

Falou ufana a mãe,
Carregando consigo o filho amado,
e singelos presentes ao lado:
"Filho, dou a você a pérola,

na prova do meu amor,
dou a você a estrela,
na busca do seu louvor.
Conheça a lágrima,
trêmula, queda e silenciosa,
de agradecimento ao Senhor"!

Falou a estrela, bela,
diáfana e brilhante:
"Desci das alturas luminosas
sou muito bela,
a mais alta lá do céu.
Trago toda a amplidão e não tenho
receio de acreditar na eternidade.
Acendo o firmamento,
levo luzes firmes ao vento,
sou a criação deslumbrante,
do universal, da glória, da divindade."

"Entre o céu e a terra
brilho poderosa.
E não tenho nos pés do céu
os feios barros da terra"...

Estou lá em cima,
Bem lá em cima,
E com louvor
Iluminarei o seu chão...

E a pérola interveio,
Vaidosa e aflita:
"Entre o céu e a terra,
não passa de grão do resplendor
não iluminará o suficiente
na poeira do infinito".

"Eu, sim, tenho imenso valor.
Vim dos mares e oceanos,
das profundezas dos rios,
das correntezas discretas,
das naturezas encantadas.
Iluminarei o seu amor,
sem pompa e estardalhaço.
Brilho no colos de rainhas
nos soberanos, nas suas
coroas reais,
sempre,
com reflexos siderais.
E você será conhecido,
por ser o dono da pérola.
Sua mãe agradecida,
pisará firme no futuro,
da sua terra e espaço.

Sou pequenina,
mas valho mais que a estrela,
sou como a gota d'água,
E não tenho nos pés da água
os feios barros da terra"...

Retrucou a lágrima com mágoa:
"Nenhuma de vocês possui o encanto,
dos orvalhos perfumados,
dos braços da alvorada
que cobrem radiante
rosas e flores ditosas.

Eu sim,
não vivo em ostentação de luxo,
e na vibração do firmamento.
Mas conheço as misérias,
Sou profunda,
sem ser efêmera.
Bailo no riso da alegria,
e procuro o alívio da dor.
Sou perdão de crimes.
Nasci do sublime dom do amor.

Eu sim,
procuro atender a todos,
Do justo ao pecador
Do servo ao rei
Ser...
No coração de um filho, relíquia.
E no coração de uma mãe, saudade....

Procuro o espírito do mundo
Rolada, fria e ousada.
Embora torrencial no coração,
sou tão pequena e redimida,
que não conheço
os feios barros da terra"...

Passaram-se os anos,
Mãe e filho se encontraram.
Na estrela da manhã e da madrugada.
Na pérola sem tamanha glória.
Na lágrima que abre, no momento preciso,
todas as cortinas da vida...

No entanto, a lenda conta que a mãe indagou
à estrela que não soube responder:

"Estrela, quantos pecados já lavei,
você que mora na mansidão do céu,
é translúcida e brilhante,
ao ver o meu filho, humildemente,
balançar corpinho franzino,
serenamente,
na vastidão vazia?"

Dizem, que a estrela se escondeu na nuvem
e chorava arrependida...

No entanto, a lenda conta que a mãe indagou à pérola que não soube responder:

"Pérola, quando o paraíso se abrirá
na fala do meu filho amado.
Quando saberemos que ele possui o encanto, do destilar de beijos e ser até oração.
Quando saberá que tem uma paixão,
proteger os valores que lhe atenda os anseios? "

Dizem, que a pérola desceu às profundezas
dos mares e chorava também.

No entanto, a lenda conta que a mãe indagou à lágrima que soube responder:

"Lágrima, você que traz as bênçãos do Senhor,
que se diz celeste e ingênua,
catalisadora e mansa.
Por que não tenho você nos meus olhos?
E não a vejo também nos olhos do meu filho amado.
O que vejo é diferente.
São olhos vazios, a buscar o infinito, mas sem nenhuma emoção."

"Meu filho é um anjo de barro, que toca bem o chão.
Sentado, num canto, corpinho torto, sem eu saber a razão."


Dizem, que a lágrima se calou ressentida,
na lembrança daqueles anos.
E respondeu:

"Embora seu filho, Mãe, seja um Anjo de Barro,
é uma alma de ternura e harmonia,
é lembrança no seu coração cansado,
mas a ampliar, navegando alegrias.

Será um dia, um anjo do céu,
Um estribilho na vibração do amor,
Um estribilho na lira dos poetas."


A mãe se calou e a lágrima sorria...




Silvania Margarida - 2002

"AUSTIA''


Tornou-se "antimaternal",
idade fenomenal,
para escrever paranormal,
de forma excepcional,
talvez,
só por instinto,
especial.
Em época escolar,
afim de repuxar,
de padronizar,
de rotular,
sua solidão.
Solidão,
que leva nome bonito,
chamado sociabilização.
ou seria obsessão.


Quanta ironia!
Quanta vida fria!
Quanta "austia"!
Ou seria altruísmo?
Quem sabe altismo?
ou autismo?
Cismo,
que é algum ismo,
que saiu do abismo,
fez-se mágica,
e tornou-se gaiola.


Mas lá vai ele,
escola na hora,
sem pestanejar,
merenda com prenda,
festa junina
e muito arraiá...
E lá fica ele,
num canto, cantinho,
na mesa sem forrinho,
e lá está ele,
olhar vazio,
sem eternizar...


Com a não-ficção,
mas com a tecnologia,
da burrice na mão,
pois sempre lhe dão
o rascunho do rascunho,
da sua ilusão,
o papel
é de computador,
pautado, com linha,
mas sem compromisso,
com o papel ofício,
entregam-lhe
o retrocesso,
o resguardo,
do retardo,
oficializado
pela alienação,
a tal sociabilização,
da transgressão
da não-coletividade.


E lhe dão o direito
de ficar à margem
moral,
corporal,
mental,
espiritual,
de conviver
com outros
pequeninos seres,
que sabem cantar,
que sabem silabar,
que sabem bailar,
e sabem aceitar,
corpo torto, chupeta,
AUTISMO
grito, giz de cera.
As estereotipias,
para eles,
maravilhas,
pois as mais velhas,
ensinaram a estes,
dar risadas
inusitadas
das caras dos palhaços.

A COMUNICAÇÃO AUTÍSTICA DE RIAN


A comunicação tem um sentido muito mais profundo, pois é responsável pela própria vida do homem. Pela comunicação se estabelecem relações interpessoais e grupais, mediante as quais são enriquecidos as pessoas e os grupos. Dessa maneira integra o homem no seu grupo social, estimula a participação ativa no grupo, nos enriquece e nos personaliza.

Portando, comunicação implica em IGUALDADE (tornar comum uma informação). Sob este ângulo, a importância semântica que palavras, gestos, símbolos e sinais adquirem no contexto sócio-político-cultural é marcante.
A comunicação, como processo, possibilita às pessoas compartilharem de experiências, idéias e sentimentos. Quando se relacionam como seres interdependentes, os interlocutores influenciam-se mutuamente e, juntos, modificam a realidade onde estão inseridos.

Eu, Silvania, estudava muito, mas, sentia-se ainda surpresa, ante ocorrências inusitadas na vida do meu filho André Luís Rian.

Certa vez, três únicas vezes, aos cinco anos, Rian se comunicou, ou melhor, falou. Não sabia afirmar se havia sentido para ele aquelas palavras. A surpresa, claro, foi imensa. Perto de uma televisão, atento a um jogo de futebol, disse duas vezes a palavra gol, gol. Numa outra situação, Rian perguntou de modo claro e objetivo: O que é isto? E finalmente pediu para ir no "arro",(carro) "passiá" (passear). Não mais emitiu nenhuma palavra.

A vida prosseguia e a comunicação de Rian também. Ele se comunicava com olhares, gestos, choros e gritos. Suas dores eram uma comunicação e seu riso gaiofeiro outro tipo de expressão.

Não adiantava lamentar o seu silêncio. Adiantava olhar ao redor. Enxergar, vamos dizer assim, uma voz que fala conosco através dos gestos e das estereotipias. Uma voz que fala das dependências do amor, como estou fazendo agora. Ou então que lhe fala dos livros que lemos, sem nunca ter lido, pois é exemplo.

Somos velhos amigos, eu e o silêncio de Rian. Ele fala de muitas coisas, pois o seu silêncio se comunica. Ele me fala em resposta dos contos, da história do Chapeuzinho Vermelho, escutada com os olhos em imagem de livro infantil, das princesas encantadas, dos reis, dos magos, das bruxas, dos castelos encantados, dos castelos de areia, dos sonhos infantis de Rian.

Rian é, por assim dizer, um silêncio em voz. Diz muitas coisas, diz muitas curiosidades. Diz a sua idade.

Para que contar mil histórias, se elas não brotam de dentro da gente?
Para que fechar os olhos e imaginar uma cena que sabemos nunca acontecerá? Com certeza, além eternidade.

É uma coisa natural, tornou-se natural o convívio desta situação, tornou-se estrutural sem ser antigo.

O ´´caso´´ das crianças especiais, não somente o de André Rian, não aparece na escuridão, não nasce da aurora, entrecortada pelas trevas da noite. Surge da luz minúscula, em pequenos fragmentos da comunicação lógica e do entendimento degradeado. Fala baixinho no ouvido de quem as ama (as crianças especiais) como se perdesse no infinito.

Anos de experiências e lutas. Como alguém, após intensa busca em deserto, que procura a Lua, e quando a encontra, olha e se pergunta: Por que a Lua desaparece quando queremos admirar seu brilho? Por que as estrelas não contam os caminhos e não falam baixinho com os mais velhos? E não falam com Rian e com as crianças especiais. E por fim, onde se encontra a comunicação?
O mistério existe e todos estão encantados. Por quê? Por que a Lua, as estrelas e os caminhos somem?

Seria por acaso, para dizer tão somente que existem assim e são assim. Todos são encantados e felizes. Há uma história que fala de coisas. Todo mundo conhece. As pessoas vão lembrar que encontraram com Rian e os caminhos por toda a vida. E quando ´´crescerem´´ vão contar a mesma história que não sabem explicar.
Por que as crianças especiais são assim? Qual é a inspiração? Inspiração é aquela descoberta que a gente faz de repente, que não vem de fora, não; não é uma coisa misteriosa que existe na nossa cabeça, pois a idéia já estava em nós. E a inspiração nos diz que a história de Rian é diferente. Diferente porque precisa muito existir, aprender e inovar para crescer.

Uma visita a um lugar mágico, a rara oportunidade de ser sutil, de ir além das aparências, de encontrar-se e encontrar artistas sem vozes, onde o silêncio diz mais do que mil palavras. Uma aula sobre a vida com o verdadeiro mestre chamado sofrimento. Num tempo, quando alguém não tem palavras para dominar e exprimir o verdadeiro sentimento que domina, um mundo fantástico que vai além de qualquer emoção.

O encontro com o sofrimento só tem valor quando flutuamos na sua aprendizagem. Quando queremos dizer para nós mesmos que o processo de reflexão faz bem para os sentidos e para a alma. Não era para ser assim: não interrompam este silêncio, ele é grande ensinamento e passa a ser um sonho, quando aprendemos a superar. Ninguém é especial porque quer, todos estão especiais porque precisam contar seus processos antepassados; viviam em fogueiras e se cerceavam nas cavernas mais profundas da obsolência e do esquecimento. E somente alguém muito especial, poderá entender os meandros e os limites da minha palavra e da minha comunicação.

Belo Horizonte, 23 de janeiro de 2009.

MENSAGEM DE LIBERTAÇÃO


Minhas palavras não levam
O passado presente
Mas me libertaram
E eu as plantei no tempo
Antes de todas as madrugadas
Ao pôr-do-sol e das estrelas
Firmes no céu sideral

Os séculos e as minhas moradas
Por intermédio das minhas poesias
Minhas palavras
Serão trazidas de volta
Com bandas de música
e repercursões de bateria
E o prestígio de todos
Se fará presente
Nas festas do fim do dia...

Antes das entradas de outros tempos
Das plantações de outras épocas
Nas falas aprendizes
Com exposições da história deles
O vômito da manhã
se fixará na noite
Levará a minha plantação do tempo
Plantação que conterá: aprendizagem
do autismo, alegrias de vida,
fermentos e bandeiras
elmos e capacetes
Que em futuro navegante
Serão mensagens de libertação...

DUAS VIDAS SILENCIOSAS


E ele continua lá,
estático,
imóvel,
impenetrável,
desconfiável.
Demonstra algo
que ninguém vê,
onde não há lápis,
onde não há sino,
existe timidez,
medo do avião,
lhe faz bater o coração,
“canhão silencioso do sol”
luz fraca da obscuridade.


É um ambulante,
dentro do seu mundo,
pode despertar
a qualquer instante,
disse um anjo,
puro e santo,
recém-chegado,
embora terapêutico
não tem maldade.


E o cansaço
desacreditado,
atordoado,
pensa que o mundo
deve lhe exigir
o silêncio como resposta.
Mas em debate, debate
e não pode
e diz em “palmas imensas
que sobem dos seus caules ocultos.”


O coração apruma
em não conformidade,
e diz com veracidade:
“na atmosfera descolorida
a minha madrugada desbota
uma pirâmide quebra o horizonte.”
Horizonte dos ideais,
agargantados e silenciosos,
afincados em sacrilégios
na busca desta desobsessão.
Ideais,
que monumentam
a paisagem de duas,
duas vidas instrumentais,
analisadas, passadas,
retrógradas, autorizadas.


E lá em cima...
Lá em cima existe...
a palma da mão da montanha,
o círculo arquitetônico de passos,
o silêncio dourado do sol,
de uma eterna cumplicidade,
de uma simplicidade divina,
embora silenciosa...

Poesia publicada no site www.anjosdebarro.com.br

DIÁLOGO PARA PAIS DE CRIANÇAS AUTISTAS







­ Marina, mais do que ninguém você sabe. Eu nunca busquei um diagnóstico para o Rian. Aliás, nestes anos, manipulei a situação de forma a não ter um diagnóstico médico definitivo que dissesse que Rian é isto ou aquilo, que Rian tem isto ou aquilo... Rótulos dependem do médico que se consulta... e eu tinha informações sobre o que procurar. Acho que a partir do momento, que um médico, com toda sua autoridade, coloca um rótulo numa criança, é muito difícil reverter a situação, até mesmo dentro da familia e grupo de amigos. Até mesmo com meu marido, eu teria que trabalhar a idéia de que "é autismo”; e daí? Ele continua sendo amoroso, inteligente, solidário, etc, etc..." O autismo é somente mais uma das qualidades que nós aceitamos como sendo parte dele.” Fui atrás daquele médico que tivesse uma postura mais aberta.
Estou lhe dizendo tudo, porque assim como não aceitei o rótulo, também não aceito as receitas. Faça isto ou aquilo. Sou uma leitora compulsiva, ávida de conhecimentos - mesmo porque trabalho em função da aprendizagem do que seja autismo. Já li milhares de coisas sobre o assunto e retiro aquilo que julgo se adaptar ao caso do Rian. Concordo com você sobre a atenção difusa e pouco focada. Chamo isso de hiper-estimulação. Mas também vejo que essa hiper-estimulação acontece quando não há nada interessante em que focar a atenção. Senão, como se explicaria ele ser capaz de alta concentração em outros momentos?
Tenho o maior cuidado quando vou à escola dele, porque os profissionais fazem questão de me dizer que lá sou a mãe do Rian. Sinto como se me pedissem para deixar na porta os meus supostos conhecimentos de professora! E não sou psicopedagoga! “Deixa a mala aí e entra!” Dizem. É absurdo, mas é assim que funciona. Quando penso em todas as dificuldades dos meus alunos - sejam elas orgânicas, estruturais, sociais, econômicas... e em como, como um trabalho responsável pode ser feito, sem comprometer a aprendizagem, superando limites rígidos, até então, fico tentada a dizer tudo que penso e dizer que elas (as professoras) são ou querem ser meras instrutoras ou treinadoras.
A procura por uma escola adequada deve levar em conta uma série de fatores; primeiramente de acordo com o quadro da criança, você deve ver se é melhor para a criança uma escola normal (a chamada educação inclusiva) ou uma escola especial adequada a um suposto diagnóstico. Para esta decisão é preciso examinar com calma, se a escola normal tem as condições para atender bem seu filho(a), se os educadores da escola estão conscientes e preparados (não basta aceitar a criança; não se trata disto, é preciso ajudá-lo a desenvolver-se).

As outras crianças costumam lidar melhor com a criança especial que os adultos. Elas auxiliam em muito o desenvolvimento do amiguinho e geralmente o recebem de coração. Naturalmente, se adaptam sem problemas. São os adultos que costumam complicar, criam métodos e especificidades, mas as crianças de um modo geral levam mais progresso ao amigo especial que todos pretensos métodos juntos.
Se alguém já procurou por educação inclusiva, deve ter levado muitos sustos e choques também. Teoricamente toda a escola deveria "aceitar" a criança, sem discriminá-la, é lei, mas não é isto que acontece. Na prática, por mais bem arrumado e bonito que seu filho esteja, muitas vão discriminá-lo. Preparo-me a cada instante. A mediocridade é tanta, que chegarão a me dizer frases do tipo: "Eu gostaria muito, mas não estamos preparados para esta criança. Como vou misturá-los aos outros? Por mim, eu matricularia, mas os outros pais não irão concordar!" e por aí a fora. Não me incomodo, pois estas pessoas não são educadoras. Realmente elas não servem para nossos filhos (creio que para ninguém).
Marina interveio:.
­ Há professores que dão aula apenas por uma necessidade econômica, ou não têm afinidade psico-afetivas para trabalhar com tal faixa etária, ou cometam erros no decorrer do processo; tem limitações sensíveis etc. Por mais difícil que possa ser este tipo de diálogo é muito importante, pois as contradições podem aparecer e fica mais fácil, tanto para a classe, quanto para o professor, trabalhar com elas. Estamos falando de professoras de escolas ditas normais. Imagine aqueles professores que devem lidar com a criança especial, principalmente, a criança autista. A falta de preparo é total.
Para haver diálogo verdadeiro não pode haver formas agressivas de pressão e de poder. Isto é quase impossível na escola, pois o professor detém o poder numa série de situações (notas, advertências, etc.). Entretanto, considerando o objetivo comum de melhorar as aulas, o professor deve abrir mão, o mais possível de algumas destas formas de poder. Por outro lado, o poder pode ser utilizado, de forma não agressiva, para o bem da coletividade. Para tanto, deve ser legitimado por essa coletividade e novamente a legitimação é o diálogo. No caso da criança especial, não existem notas e advertências, há muita doação. É necessário que cada ato acadêmico deste poder tenha o seu conteúdo, o mais claro possível, inserido no amor e na vontade de doar. Crianças limitadas pelo atraso mental precisam necessariamente de muitos estímulos bons e saudáveis e não demonstração de poder.
Por que deve haver necessidade de exercer este poder? Devemos estar atentos para o fato de que quando se inicia um processo de transformação, a primeira resposta pode não ser a melhor, pois é fruto de autoritarismo assimilado, lembrando a questão do opressor e do oprimido, levantada por Paulo Freire. De modo geral, podemos dizer que, se fossemos identificar opressor e oprimido numa sala de aula, os alunos ficariam como oprimidos. Pois, cada oprimido “hospeda” um opressor dentro de si (modelo que foi assimilado pela própria educação hierarquizada).Temos que reconhecer que temos limitações, mas também muitas possibilidades inexploradas pedagogicamente.
Para que o trabalho em sala de aula possa se desenvolver, há necessidade de se ter condições mínimas favoráveis. Estas condições devem ser construídas pelos elementos participantes do processo educativo. Deve-se destacar que a responsabilidade pela obtenção desse ambiente de trabalho é tanto do educador quanto dos educandos. Freqüentemente, esperamos que outros, os superiores nos passem as ordens, pois vivemos numa sociedade marcada pelo mando e desmando, estruturada de cima para baixo. A sociedade é dominada pelos adultos; na sala de aula o professor representa o mundo dos adultos e isso já contribui para a criança ou jovem. Ter um tipo de comportamento semelhante àquele que ele tem fora da escola com os adultos que o rodeiam (agressão gratuita). As relações que são estimuladas geralmente são as de obediência, submissão, silêncio, enfim de repressão de toda possibilidade de manifestações interior mais autênticas e criativas.
O que fazer? Existem inúmeras variáveis envolvidas no processo, mas o fato é que queremos e precisamos dar nossas aulas, e da maneira mais satisfatória possível. Apesar de que, aparentemente, a partir do velho a perspectiva é nova: a superação do velho; o que não pode ocorrer é parar no meio do caminho, pois aí seria, de fato, o velho. Não podemos partir do pressuposto do falso, que todos os alunos sabem por que estão na escola. Na cabeça deles há uma mistura entre bagunça e espaço para liberdade. O professor tem uma proposta, sendo em grande parte de sua responsabilidade, garantir que ela aconteça, uma vez que sabe onde quer chegar, sabe o que quer e está comprometido com o trabalho; assim não basta ensinar, deve estar atento para que o ensinado seja aprendido (só há ensino, quando há aprendizagem).
Uma classe é um conjunto de pessoas diferentes; neste ponto entra a necessidade da clareza, para poder assumir um certo grau de firmeza quando for preciso. “Não se trata do fim justifica o meio”, mas de usar o meio preciso, coerente com o fim, numa visão de totalidade. Não se perde a ternura quando se sabe porque se endurece. Vale lembrar a frase de Santo Agostinho “Odeie o pecado, mas ame o pecador”.
Essas considerações são apenas indicações de início de trabalho. Efetivamente o grande desafio é a construção da proposta educacional no seu cotidiano de sala de aula; aí sim é que teremos que possibilitar a superação de uma participação passiva e alienada por uma participação ativa e coletiva; entendemos que sem um clima de trabalho, por melhores que sejam as intenções, nada se fará de significativo. Trata-se de lutar contra aquilo que impede a efetivação da educação libertadora. É necessário uma tomada de posição do educador diante do ato educativo: assumir uma postura pedagógica fundamentada. Trata-se realmente de defender um tipo de educação educativa. Construção da participação coletiva e ativa supera a pseudo-educação do repressor, supera também os limites da sala de aula e se abre para um compromisso de transformação da sociedade.
Pela proposta não queremos formar populistas de belos discursos e práticas fascistas. Desejamos contribuir na formação de pessoas competentes em conhecimentos, inseridas e comprometidas com a realidade, humanizadas, capazes de gerar uma sociedade nova.
A nova sociedade é sonho, utopia e horizonte, mas plenamente realizável. É sociedade onde o saber, o poder, o possuir e o viver sejam plenamente socializados. No caso da criança especial, precisamos de salas de aula, devidamente preparadas, ostentadas na vontade positiva da proposta educacional positiva.
Beatriz reafirmou:
- Um fator importante, para evolução dos nossos filhos autistas, é a harmonia no lar, um tanto difícil nos dias conturbados de hoje. Um mínimo sinal de desajuste é logo captado por estas crianças e, quando isto acontece caem em profunda depressão. A depressão pode também ser em conseqüência da enorme dificuldade que tem o autista para se comunicar, gerando uma tristeza profunda e, por fim, a desistência de aprender.
Dizer que espero que um dia meu filho vá para uma escola inclusiva, seria falso de minha parte. Não pretendo que ele seja inserido neste tipo de escola. Já esteve com seis anos, idade escolar. Fez Não sabe analisar uma garatuja. Não sabe ler, seu olhar é vago e sem domínio de si. Como exigir que a sociedade o aceite? Passaram 10 anos e nada mudou. No bucólico vinte de outubro passado, fez vinte anos. Nada mudou.
Apesar de toda esta nossa discussão, nunca cobrarei de médicos: rótulos e diagnósticos, nunca cobrarei da sociedade a tão sonhada inclusão social, nunca cobrarei de uma escola que seus profissionais sejam amorosos e especializados em determinadas nuances do autismo, mas cobrarei da minha família e de minhas filhas: entendimento. Cobrarei de mim mesma o desenvolvimento do meu filho André Luís Rian.
A sua vida escolar já foi iniciada. A escolinha do bairro nunca coube em sua vida. Esteve sempre ultrapassada. Tocar rodinhas dos carrinhos de brinquedo já não dá mais. Mirabolar os pequenos helicópteros está desgastante. Os carrinhos de brinquedo estão pequenos demais para a nova passagem que pretendo iniciar com Rian. Irá determinadamente para uma escola especial, do outro lado da cidade, em um especial, que o deixará em casa por volta das 7h da noite.

Preciso confiar, Marina, e continuar seja no preço que for para sonhar e pagar.

Duas décadas já se passaram e até hoje o desenvolvimento é precário. Afinal, autismo é um jeito de ser e de viver. Quem não sabe disto, que o saiba agora. A sociedade pode ajudar sim. Incluindo e não desiludindo pais que atravessam a vida na esperança da cura excepcional. Ela não existe, pois autismo é jeito de ser.

MERGULHEI EM VOCÊ...


Senti em você
a maneira correta de viver
a mais rápida dignidade
que fortifica a alma
em desejo e espera.

Mergulhei em você
querida criança
Inspirando, que consciente
Estou inspirada no seu amor.

Desejei para você
os estímulos mais verdadeiros
Pois são eles que separam
entusiasmos passageiros
verdadeiros anseios

Senti seus olhos, menino,
As pupilas fixas e profundas,
Naveguei no seu distante mar,
Mergulhei em ondas agitadas,
Senti a sua solidão
sua emoção gélida e inebriante
Procurando o seu olhar,
E vi mansamente você chorar.

Enxuguei suas lágrimas
Minhas mãos lhe acalmavam,
Sentia sua súplica,
estreita acolhida,
Muitas e reiteradas dúvidas,
E incompreensível certeza.

EU QUERO...


Filho criança
a folha que tu és
e não me laça
eu quero
Filho especial
a flor que tu és
e não me dás
eu quero
Por que seu autismo me nega
tudo o que eu te peço?
Minha cura és tu, nada mais...

ACRÓSTICO DO AUTISMO


A nunciar a dor do autismo para pais
U m fator de redenção para a alma conjugal
T er que conviver com criança especial
I mola o coração da infância que não cresceu
S erve de lição para a vida inteira, para todos os legados
M esmo com o passar dos anos e a triste solidão
O riso não soa,a música não toca,no berço sagrado em dias felizes

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

TRAMPOLIM


Mamãe,

descalcei a montanha,
peguei no pé do vento,
enrolei os cabelos da cachoeira,
deitei-me no leito do rio
e mandei toda a água
para a garganta do oceano.


Dei um laço nas tardes
do meu mundo
e usei o estrato das nuvens
nos punhos das minhas vestes.
Consegui rodar o pião da Terra
e me fazer espectador deste espetáculo.



Já machuquei a cauda
das noites de junho
já espichei os cabelos do sol,
nos dias de verão.


Vestido de sete cores,
já brinquei no trampolim do arco-íris
já brinquei no trampolim da vida.
Bamboleei o horizonte,
bebi o sangue do ar
que correu nas veias
do meu corpo
como linfa cicatrizante...




Agora quero o papel do infinito...
para escrever
o acorde da música inédita,
e da poesia,
que fiz para a festa do fim do dia...

Ajude-me,
verei em você
novos horizontes.
brincarei com você
em novo espaço do meu ideal
Depende de você.
Ajude-me, mamãe...

Pois sem você
sou autista trampolim...

DESEJO INFANTIL


Mamãe, quando eu era neném
você me achava linda,
e eu sorrindo lhe retribuía
tudo que queria de mim.

Eu era a sua menina
muito esperta e sabida
meus sentimentos infantis
se misturavam aos seus.

Mamãe, dizia eu,
sou sozinha, sem amiguinhos,
quando é que posso ter um
cantinho só meu.
Durmo aqui com a outra menininha,
minha irmãzinha querida
mas é só nenezinho também.

Quero crescer, quero cantar.
Só tenho uma pequena irmãzinha
que não pode brincar comigo.
Estudar tudo enfim.
Mas preciso de um irmão,
que me dê muito amor,
que olhe só para mim.

E quando crescermos
e de força for preciso
ele será nosso apoio.
De voz grossa e pé no chão,
dirá para todos, bravo e audaz:
- não mexa com minhas irmãs,
pois eu sou sem fronteiras,
decisivo e seguro
de pé firme no chão,
e de me fazer entender
sou muito capaz.


Esperei, orei,
e pedi a Deus,
Nosso Senhor,
um irmão.
Para nos proteger,
nas brigas do colégio,
nas horas do intervalo,
no momento da merenda,
nas festas dos nossos primos,
nas reuniões familiares.
E aquele que mexesse comigo,
ou com a minha irmãzinha,
teríamos paz e proteção.


Eu sei, eu sei,
são pensamentos de outrora,
que não fazem mais sentido,
mas que vinham em boa hora
de menina infantil,
e que acabariam por sinal.


Lembro-me um dia, direitinho,
em manhã muito agradável,
papai nos deu a notícia.
Eu contava com seis anos,
entendi tudo, finalmente,
eu teria o meu irmão.


Sim, veio o meu irmãozinho,
forte, feliz e risonho.
Tudo isto em meus sonhos
de sentimento e esperança.


Mamãe me chamava feliz
venha minha linda menina
vamos contar histórias
de Jesus e de amor sem fim.
Ou você conta ao neném
ou então espera por mim.


Ah! Jesus, disse eu
vou brincar tanto com ele,
vou ser para ele,
uma vida de luz,
ele vai me achar a mais linda
e eu serei uma fraterna companheira.


Serei a sua professora,
e quando tiver que lhe mostrar
os mapas do nosso planeta,
mostrarei em todas as aquarelas
e ele aprenderá como
a nossa Terra é bela.


A nossa irmãzinha do lado,
fará as pontas dos lápis
de cores que já imaginei,
tomará as tabuadas
sob minha coordenação.


Quantas vezes imaginei
ir de bola ao barraco,
levá-lo à creche
em roupa de marinheiro.
Quando no Jardim Infantil
lá ia eu sempre no horário
com as suas mãozinhas
dadas entre os meus
dedos felizes.
Ir de bicicleta até o largo
da pracinha da nossa rua.


Em todas as circunstâncias
com palavras sóbrias e amigas
os meus pais conversavam comigo,
para me ajudar a compreender
o verdadeiro sentido da vida.


Naquela tarde de verão
compreendi, sim, como entendi,
que a minha missão
era muito grandiosa,
fazia parte de uma casa
onde tudo era especial.


Ah! Minha rua,
se ela pudesse contar
quantas vezes chorei
na pracinha,
quando me contaram
muito tristes que o meu querido
era muito especial.


E eu não entendia.
O que era ser especial?
Eu também era especial,
pois adorava a irmãzinha
e agora o outro irmão.
eu que era especial,
sim, pois somente eu
tive dois nenêns,
para minha principal
preocupação.


E agora?
Onde estavam meus sonhos?
Jogados todos no chão?
No balanço do seu corpo,
nos gestos esquisitos,
mas para mim, lindos,
o tremer das suas mãos?


Passou o tempo,
hoje, quando olho
os meus desejos
infantis, sem remorso
algum, eu não choro.
Desejos são desejos,
se realizáveis, que bom!
Senão fica guardadinho,
nos arquivos do coração!


Aprendi a ficar calada,
aprendi a ser pensativa,
muito reflexiva,
e a ter sincera paz.


Gostaria que tudo fosse diferente?
Talvez sim, talvez não.
Mas para mim este irmão,
tão adorado irmão
é meu semblante
já juvenil da minha luta.
É motivo de nossa alegria,
pois o mesmo sente
a nossa outra menina.


E quando mamãe está no trabalho,
eu me sinto muito importante,
pois passo horas dificíeis,
aprendendo a conhecer o
muito desconhecido,
pois sou a responsável,
por tudo que o envolve,
e traço planos e planos,
que em arquivos de sonhos
que se sucederão,
não sei em qual futuro,
mas apressa o meu regresso de amor.


Irmão, você para mim é o meu motivo,
de alegria, a vida ganha sempre
um grande sentido novo,
e assim...
o amor que tenho por você
é tão grande,
que foge à intimidade
e fica por este mundo
por toda a eternidade!

A MUSICALIDADE DO AUTISMO EM RIAN


Era uma experiência incrível presenciar os sentimentos mobilizados em Rian quando ele ouvia a música que gostava. Suas tendências para a musicalidade eram imensas. Suas reações me impressionavam.
Às vezes, em algumas de nossas sessões, Rian ficava entretido, sentado em frente ao aparelho de som. Deixava-se ver e sentir suas reações por alguns momentos. Aproveitava todo este preâmbulo aberto por ele. A música entrava em seus ouvidos e todo o seu corpinho de criança acompanhava o som. Rian parecia um maestro regendo uma sinfonia. Adorava mexer seus dedinhos de acordo com o movimento da música. Não olhava para ninguém, não gostava de responder aos chamados e se deixava ficar assim por longo tempo; numa anímica situação infantil de quem começa a criar brincadeiras e vivê-las em memórias sem fim.
Seus pais gostavam da atividade e a seleção musical de Rian havia se tornado uma rotina naquela casa. Orientavam suas filhas para tal procedimento, quando percebiam que Rian acordava mais agitado. Tal atitude era um ótimo remédio para a preservação da tranqüilidade de Rian.
Suas músicas preferidas eram cantadas por Roberto Carlos, Elvis Presley, entre outros do gênero. Por outro lado, músicas clássicas e dos anos sessenta.
Com o tempo, começou a apreciar também música popular brasileira e seu repertório se ampliava. Era estranho imaginar, mesmo sendo uma psicóloga, como Rian teria tal diversidade musical. Como poderia acontecer aquilo? O que víamos era surpreendente. Todos os seus sentidos ficavam voltados para o som; a sua musicalidade era intensa, a melodia e o ritmo podiam ser percebidos no compasso dos seus atos infantis. Olhos, ouvidos, boca e dedos acompanhavam o movimento musical.


****


Inúmeras foram as vezes que já na entrada do apartamento, escutava músicas típicas de Rian e que hoje me vêm à memória:

“Quando a velhice chegar, eu não sei se terei tanto amor pra lhe dar’’
“Por isso corro demais, corro demais, só pra te ver meu bem”
“Detalhes tão pequenos de nós dois, são coisas muito grandes pra esquecer”...

ou

“Kiss me quick , Kiss me quick”.
“Love me tender, love me truly”.
“Oh! Carol! Oh! Carol”!

Quando comecei a presenciar sua sensibilidade para a música, Rian ainda não falava e era muito pequeno. Mas seus lábios costumavam fazer movimentos como se estivesse cantando baixinho. Não sabia se Rian tinha a capacidade de memorizar todo o repertório das músicas que gostava, mas sabia que a maneira como balbuciava tais canções, fazia-me pensar a esse respeito. Sua sincronia com a música era fantástica. Fazia-me meditar novos e bons presságios no seu tratamento! Música é alegria, música é busca. Estaria eu, mais uma vez, a aprender, a buscar, a abrir as portas do mundo de Rian.
Com o tempo, ele começou a adquirir alguns sons pela fala e, quando ia ouvir suas músicas, gostava de repetir os refrões.
Lembro-me de presenciar muitas crianças, ainda bebês, terem reações semelhantes as de Rian, com relação à música. O que ele fazia desde pequeno era visto também e da mesma maneira em crianças que tive o prazer de acompanhar. Os dedinhos que se mexiam ao som de uma música que acalmava, como se fossem pequenos maestros e a situação calma e entretida com que ficavam durante muito tempo. Eram crianças extremamente saudáveis e em nenhum momento poderiam precisar de um acompanhamento especializado.
As reações de Rian se pareciam muito com essas crianças e em nada poderia cogitar uma reação autística de isolamento. Suas reações eram de puro sentimento e emoção. Entendia cada vez mais sua extrema sensibilidade e pensava até em suas manifestações de birra. Seriam apenas manifestações previsíveis de um quadro sindrômico, ou reações extremas de uma sensibilidade e sentidos altamente abertos e frágeis diante dos estímulos do mundo que o rodeia? Suas birras também poderiam ser interpretadas? Em determinados momentos, tais birras eram, no meu entender, um baixíssimo limiar de tolerância à frustração e em outros momentos não. Nesses momentos, creio eu, trabalhava os sintomas de um quadro nosológico e, quando via o meu erro, voltava a ver Rian e interpretar suas reações como uma comunicação.
O prazer pela música me fazia ver isto. Rian tinha desejos, vontades e sensações de uma criança normal e eu precisaria acreditar no contexto vivido. Gosto de pensar que todas as pessoas procuram a necessidade de serem saudáveis e felizes consigo. Com Rian não era diferente. A necessidade de um autista de se afastar de um mundo visto como muito ameaçador não era uma regra constante em sua vida. Ele também sabia tirar proveito do que este mesmo mundo ameaçador poderia oferecer de bom. Ele sabia viver plenamente também.

belo horizonte, 30 de março de 1996...
silvania mendonça almeida margarida

A CRIANÇA QUE AINDA SOU...


Dentro de mim há muito da criança
de tempos atrás, que estão no agora...
A boneca careca que veio dos Estados Unidos
Dada por um tio...

O cavalinho do Parque Municipal de Belo Horizonte
O bonde da Rua Padre Eustáquio...
Chutar baldes, levantar barracas...
Ter medo do escuro e de assombração
que aparece para criança levada...

Dentro de mim mora uma criança
que quer falar, brincar e vestir
roupinhas coloridas da estação,
brincar de esconde-esconde,
sonhar que parou o tempo
dos jardins da infância
que não frequentei

Quanto de criança há em mim!
Chupar laranja com bagaço
Desobedecer mãe e cantar para irmão ninar
Manga, com limão e sal
e jurar que não fui eu
não fui eu que fiz a arte
que tocou campainha na casa do vizinho
subiu no muro da D. Marinha
e gritou com os meninos da rua,
e brigou com meu irmão Cesinha

Dentro de mim
mora aquela criança que precisa
sonhar, ser Wendy na Terra do Nunca
voar com Peter Pan e a Fada Sininho
e ter medo do Lobo Mau
Fingir que a casa dos porquinhos vai cair
e fantasiar a Mulher Maravilha
e ter o Super Homem como super herói.

E a criança que há em mim
precisa de tempo para oscular
os meus pais, os meus irmãos
mesmo que nas lembranças
antecedentes

Viajar nos livros infantis,
ter amiguinhos e sentir o luar
ou o torrão do sol, na ribeirinha
do rio do meu coração
andar de pé no chão
sentir o cheiro da chuva
e o gosto bom de correr
nas várzeas do Lago de Furnas
sempre em Boa Esperança

E o meu vestidinho listrado
feito de remendos emprestados
surtiram efeitos comentados
Lembro-me, muito bem!
Balançava e rodava a sainha
dizendo a todos: sou noivinha
do meu Jesus Encantado!

O tempo passa
tenho certeza que sobrou
a criança que ainda sou
afinal de tudo que ainda tenho,
permanece a felicidade
de lembrar de arco-íris
que mora em cada um de nós!

A criança que ainda sou
permanece aqui,
e não está escondida
ri do autismo e do infinito
ri dos filhinhos e brinca com eles
para nascer outro dia!

REFLEXÃO


Se... Disser...


Se a nota musical disser: “a criança especial não pode compor uma música...
e por isso, não haverá sinfonia”?

Se a palavra disser: “a criança especial não pode escrever uma página... e por isso não haverá livros”?

Se a pedra disser: “a mão da criança especial não pode levantar um tijolo. Não haveria, então, a construção de uma casa”?...

Se o grão de trigo disser: “uma criança especial não pode semear o campo e por isso não poderia haver a colheita”?

Mas se um homem disser: “tome aqui meu projeto: faça da música a sinfonia dos acordes universais para o bailado das estrelas;

Da palavra, a leitura dos caminhos...da pedra preciosa, a mágica dos monumentos...do grão de trigo a exuberância dos celeiros”...

No percalço, então, das indagações, entre os inúmeros papéis desbotados, o homem encontraria incompleto, um dia, o seu projeto...

Retoma-o

E no primeiro impulso, busca as mãos do especial. E na metonímia do projeto, verá o mapa roto da insensata produção...

GARATUJAS DO AUTISMO


Seu papel de carta
Seus arquivos recebidos
Sua mensagem em branco
O seu documento modelo
Têm local original

Os riscos da letra do meu filho
Não há letras, há garatujas da letra A
O seu autismo marcado
Tem garatujas infinitas
São rabiscos sem mãos
São rabiscos sem pinças
São trejeitos desencontrados
Da disgrafia em cada mão

A leitura não se faz
Não há cognição
Não há significante
Não tem significação
São garatujas do amor

Pensava que
fachadas, móveis e instalações
podiam criar desenhos que
se prestam aos mais variados fins
e que as minhas garatujas
foram a opção por um desenho
de cunho autoral
Mas não
Seus desejos não eram meus
Seus desejos são garatujas autísticas
pois seu nome sabe escrever


E, eu, sonhei, para ele
desejos dos diretores de arte,
sem ter um estilo muito definido.
Ao longo desses anos,
fui rabiscando uma série de esboços
sem compromisso de figuras meio estranhas,
que eram esquecidas nas pastas
e gavetas do estúdio
do meu coração.
Costumava chamar esses personagens de "garatujas"
numa alusão aos rabiscos
que as crianças ditas normais costumam fazer

As garatujas foram se multiplicando,
multiplicando
até que um dia ganharam vida própria
Depois veio outra chance
Saíram das gavetas e pastas
e passaram a ganhar o mundo
Não havia mais nada que eu pudesse
fazer para detê-las
O meu filho continuou autista
E eu passei das garatujas às letras,
das letras às poesias
Da poesia ao entusiasmo
de publicá-las
Em nome do amor.

PASSEIO ANTERIOR DO AUTISMO


Passear por dentre os seus campos
Semear suas colinas e colher flores
Nos seus vales e montanhas
do seu olhar lindo, vago, parado
É o seu dia-a-dia.

Saber que seus olhos invadem
A privacidade de seus próprios sonhos
Abrolhos, calorosos, desmedidos
Deleitando em azeites perfumados
mas a contar sem horizontes
É o seu dia-a-dia.

Roça o chão, roça as mãos
Na suavidade da pele
Mas não a sente
Agasalha o corpo
Na medida da necessidade
Mas sem aconchego
É o seu dia-a-dia

Terapias não dão nó no âmago
Da sua pena musical
Mesmo que armadas pelo tempo
Tempo do tempo do tempo
do seu autismo temporal
Da espera...
Do seu dia-a-dia

Via, vai, via, vai
Caminha,
Sabe que
Está só começando


Sente o precoce
sangue das teias
que percorre
todas suas veias
Vê a incorreção
da sua linguagem
Ao longo desta vida
Mas não da eternidade


POEMA DE RIAN !!!


André Luis Rian
ser sua mãe é ser mãe
em 23 de outubro e nas próximas
eternidades que virão.

É tentar se desdobrar
fibra por fibra
É viver entre os braços e afagos,
É rir do futuro esperado
das fibras íntimas do nosso ser
É furtar-se baixinho
sobre um berço dormindo!

É ser anseio,
felicidade e alegria.
É ser gravidez,
uma tentativa de escrever
sentimentos e palavras
que acabam dando lugar
às emoções mais primeiras.


Parece-me que foi ontem,
e quinze anos já se foram.
Quinze anos aprendidos,
por amor, tão longo amor.


Choro pela fragilidade do meu ser...
E pela fortaleza do seu ser especial,
Choro, neste momento, mas é por pouco tempo...
Permita-me chorar, prometo, é por pouco tempo,
A minha tristeza velada é leveza sentida,
após qualquer prática de purificação,
Devemos continuar a luta...

Lembrar-se de momentos passados
Das andorinhas da sua janela
E você a perambular nos diversos colos alheios
Para no outro dia começar novas terapias.
Amanhã será outro dia.

Mas como descobrir
em momentos de nascimento,
Logo parto, que filho primeiro.
Que tão amado e esperado
teria mais letras do que se imaginava.
E é nessas horas que o futuro poderia
estar escritos nas cartas que
não ouso abrir, mas não,
ele está trancado longe de mim
em vidas do passado negadas,
ao nosso esquecimento:
meu e seu, filho muito amado.


Decidir o caminho a seguir
tornar-se-ia tarefa muito difícil,
Se não estivesse perto de mim
para nos entrelaçar a evolução.
Os meus olhos não sentem
e o meu coração vê,
no vento foraz,
em ventre forte,
que corta as matas,
que pulsa as veias.
no som dos rios, das folhas,
cascatas, o meu grito
intenso e nunca respondido
andré, Luis, rian,
rian, Luis, meu andré,
o seu vento espelhado
não responde em letras, mas
em harmonia de uma música.
E em qualquer canto,
que está perto das estrelas,



Nossos caminhos, nós traçamos,
sem saber bem para onde vamos.
É o tempo que temos
para aos olhos dar o brilho
e aos corações o calor
no que nos liga ao trajeto
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.


Não me vêem outras imagens,
a respiração mais pesada,
mãos, que em imagens fragmentadas,
cerceiam o outro lado da luta,
buscava o brilho opaco de uma lua
que está ainda por brilhar.
Médicos, remédios, autismo,
e quem disse que existe autismo?


Oh! O meu coração!
Ser mãe é ter no alheio
O local onde habito
“casa que hoje sou!”
E quem me sinto morre
no lábio que suga,
pois seu silêncio fala,
o pedestal do seio,
não morre, cala e
procura o luar,
e ao mesmo tempo,
cantando, vibra.


Ser mãe é ser um anjo que se libra.
Mas se os seres encantados
começarem a incomodar
o seu sono tranqüilo,
infinito,
debelarei sempre,
pois durante este trajeto
muitos momentos marcamos,
e sem temeridade, e sem receio,
é ser força que os bens equilibram!


Hoje, André Luis Rian
pertencemos um ao outro
a um tempo que não existe,
como se só tivéssemos nos conhecido
em lugar encantado, e, profundamente,
em sonhos houvéssemos acontecido
em nossa total cura!
Só acredito que fomos dois
em um — um certo dia.
Todo o bem mãe
é bem, cujo Criador não está longe.
Nos seus parabéns,
que para mim são eternos,
são espelhos em que se miram
afortunados os anjos
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!



Filho,
saudades, as mais variadas,
Aprendizagens, as mais incandescentes,
Ações, as mais belas,
Vida, a mais vivida,

Por isso, filho meu!
Permita-me
Ser sempre sua mãe e andar
chorando num sorriso!
Permita-me,
por mais quinze eternidades,
Em outros outubros vinte e três,
Querer ter um mundo de você!


Esclarecimento:
Não existe melhor homenagem de natal que a criança especial, que acorda anjos e levanta arcanjos em nome do amor. Por isso, esta minha homenagem. Para esclarecimento o meu filho se chama André Luís Rian Mendonça Motta.

Belo Horizonte, 21 de dezembro de 2004.

PRISONEIRO E FLAUTISTA


Lavam-me os pés
Procuram-me nas quatro paredes
Pensam no amor que sonhei,
Imagino que são fantasmas a
me perturbar, pois estou só
na prisão vazia...
Vi que nada é de ninguém.
Já não vejo imagens
Só escuto um clarim
do corneto que me enche de clamor

Quando estou doente
para evitar feridas sangrentas
para esquivar-se da faca e baioneta
para esquivar-se da bala perdida
que poderiam me causar dor
Só escuto o clarim do corneteiro
que me chama à meditação e ao amor.

As paredes são pesadas e curtas
São pequenas miúdas...escuras
As celas bem trancadas
Pelos crimes de todos que pratiquei
Claro que não sou capaz de ser feliz
Prisioneiro é que mais sou...
pois caçava homens.
Mas para me poupar o meu peito,
escuto cada dia mais o clarim...


Clarim, música, poema, vida...
são relíquias perdidas
para todos os arrependidos
dos crimes instigados,
conduzidos, desnorteados,
agora estou,
julgado e condenado
em cadeia perpétua
lançado na infindável
catarata de uma prisão,
cela rança da condenação.


Postura e porte parecem estranhos
atos bizarros e anti-sociais.
Hoje! É um dia diferente...
Falta muito para o dia terminar
Pergunto aflito... à sentinela
Como um último pedido...
A morte me espera em aflição


Apresenta...Mostra-me
Deixa-me conhecer
Como último desejo desta vida
Miserável que deixarei neste dia
O flautista que me acompanha...
Onde se caça borboletas e andorinhas...


“Jura-me... diga-me...
Quem toca tão célere música?
Quem toca tão doce clarim?
Quem toca tão linda corneta?
É tão clara a mensagem desta
Na derradeira manhã de minha vida
vai chegar além de onde canta passarinhos
e me redimir deste chão?”

“Prisioneiro...pobre coitado
Disse-me sentinela da força da lei
Aguarda-me...
Que como pedido seu
Alguém lhe apresentarei...”


E o pobre homem
Que me atende o serviço
Que se veste de oliva por força da lei
Traz flautista para eu conhecer
E olho estranhamente ser frágil e pequeno
Criança a balançar constante a flauta
Pequena, dourada
A postura e o porte parecem estranhos
atos bizarros, mas angelicais
Pergunto-lhe o nome e não me responde...
O nome outra vez, e o nome outra vez,.
Fica espantada e me rejeita
Nada...Menina não fala
Apenas toca a flauta clarim

Pergunto-me, nas últimas horas de vida.
Que esta história se pode ouvir...
se se acostuma a não ouvir passarinhos,
Menina ou eu.? ela é livre e eu prisioneiro????
A gente se acostuma
a não colher frutas do pé,
a não ter sequer uma planta.

Ter a sensação e ilusão
do que a música me diz
Transforma-me em poemas
Que vão se transformar
na flor branca macia...
em meio aos meus milhos graúdos...

“Mas menina,
desabafo, imploro
toca novamente o clarim,
toca mais uma vez sua flauta melodia,
Para que o meu cavalo branco volte,
pois fugiu sem deixar rastro nenhum,
Ainda nestas últimas horas
é permitido sonhar...

E ela toca, música leve e ritmada
As notas em claves do sol
Que me neguei na vida ver

Será que os absurdos
são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos
são mais
carregados de poemas
do que o bom senso?
Que incomodam a ciência
E imolam o senso científico...
O essencial é aquilo que,
se nos fosse roubado, morreríamos?
São tantas as indagações para tão gente detenta...

Menina...
Vejo em seu rosto o sinal
que se repete e repete,
no meu bouquet fantasia...
as suas mãos que balançam
a buscar o infinito...


Adorada criança
Que foi minha maestra
durante estes anos de solidão,
de abrigada reclusão...
obrigado por seu silêncio e por se olvidar...
Vou-me, não precisa me dar a mão...

Agradeço a Deus
Por conhecer o lugar que está e
Para onde vou...
Já amanheci quinze vezes
dentro da noite crescendo
Da qual, por sorte, me salvo;
Não peço o orvalho do vento,
Nem o cheiro de açucena que amanhece,
Mas no seu reino, alvorada tem hora certa
Com o toque da sua flauta e do seu clarim....

Ainda é longe a claridão onde
a aurora inteira se enquadra,
no mundo encantado...
Adeus! Vá cantando e não se perturbe
Pelas emoções que estão por vir...

A sentinela é móvel, vai e vem,
Já veio me buscar....
Adeus! Vá cantando flautista
que é amor, é brasa, e, de repente, é rosa.
Mas no seu mundo... esta criança...
Só ela sabe para ela mesma...
Que é livre e luminosa e muita alegria,
Que as notas da sua flauta corneta,
sabe os acordes do coração.

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