quinta-feira, 7 de junho de 2012

O ALFINETE, A AGULHA E A LINHA TÊNUE DO AUTISMO





silvania mendonça almeida margarida


O alfinete e a agulha, entabulando uma conversa informal, mas muito importante sobre crianças, cogitavam a importância da educação, no intervalo de um curso que frequentavam. Nossos personagens cursavam o famoso Corte & Costura, para serem artesãos de uma confecção de moda infantil.  Era a hora mais sagrada para aqueles entabuladores, lanche e  uma boa hora para a trocas de ideias. Exatamente, naquele dia, o alfinete estava tristonho e dizia cabisbaixo: “eu não tenho o alicerce para a aprendizagem. Como disse MACHADO sobre mim, sou apenas a marcação de mim mesmo na costura e não consigo segurar o pano em seus moldes perfeitos”.

A agulha argumentou: “Alfinete, faça-me o favor. Não chore por você! Somente por você! Não seja egoísta! Chore por nós! Você acha que eu também tenho o dom da aprendizagem? ASSIS foi claro em seus dizeres: somente  consigo costurar panos frente qualquer linha ordinária. A Agulha e o Alfinete precisam da Linha para a sobrevivência do Corte de Costura”.

O Alfinete mais pensativo corroborou a mensagem da Agulha e disse mais contemplativo: “é, realmente, precisamos da linha para a nossa sobrevivência, principalmente aquelas que são mais tênues e delicadas”.

A Linha entrou na conversa: “Alfinete e Agulha, vocês não deixam de ter razão, mas vou repetir para vocês EXATAMENTE, onde devo investir se me quero descobrir como uma linha tênue e que não arrebenta. Que pode ser burilada e se encontra forte. Delicada nas mãos e nos corpos das crianças que vestiremos. Mas Machado também deixou a mensagem da educação, principalmente a mensagem da educação especial. Aí, poderemos escolher em qual departamento da confecção que trabalharemos. Existem vários. Podemos escolher crescer ou ficarmos estagnados. Já estamos, inclusive, matriculados num curso muito especial que vai ter aqui na Confecção, esqueceram-se?

Alfinete e Agulha escutaram admirados todos os ensinamentos da Linha que começou a dizer:  
“Por alegria e satisfação, EU, Linha, gostaria de ser a tênue linha do Departamento Autismo, dentre vários departamentos importantes da Confecção Infantil,  pois andei escutando que faremos belos modelos para estas crianças. Teremos que ser diminutos, imperceptíveis e delicados. Mas será um trabalho de equipe conjugado com o amor. A Professora do Departamento Autismo já deixou elaborado o primeiro molde que devemos aprender. Vou lê-lo para vocês:

“Os quatros pilares da vida (infância, juventude, vida adulta e madureza) são bênçãos herdadas da família para o seu prosseguimento  em uma  linha  genealógica   em  cada uma  de  suas  fases.  Aí se imprimem os caracteres dos diversos valores  já  implícitos,  que  se carregam  nos  laços  peculiares  à  consanguinidade   e/ou   aos   caracteres   transmitidos   pela genética humana. Por isto,  a criança autista, o jovem autista, o adulto autista precisam tanto da família em suas basilares marcas.  Vale  a   pena   incentivar  a  formação  correta  do autista.  Educar  sempre  por intermédio  dos   exemplos,  da  palavra  carregada  de informações  de nobreza,  do  parecer  consciente,  da  arte,   da  música,   de tantas  outras  formas  ditadas  pelo  bom senso . Sempre lembrando de que a boa semente é retroativa quando lançada com  total responsabilidade ao  campo.  Produz-se  em abundância  e  a  riqueza  abençoada  pela  Lei  de causas  e  efeitos, retorna    multiplicada   ao celeiro do  semeador educacional. “Aí está a primeira delicadeza do nosso trabalho de costura tênue”, repetiu a Linha!

O Autismo representa, com certeza, a dinâmica e a sequência da  vida  que se desdobra  para  novos  patamares  existenciais. Ao  mesmo tempo,  se  responsabiliza  pela  continuidade e pela  qualidade  desta  costura tênue, feita em conjunto, por Alfinete, Agulha e Linha,  de seus portadores, como prova bio-psico-física-espiritual,  cuja  origem  está  radicada  na  gênese  da  criação.  Vem através do seu normal estabelecimento, de tempos em tempos, incrementando  o  progresso basilar de seus pais, professores e terapeutas,  usando  a  inteligência  e as  aptidões humanas  na  renovação   dos  feitos  e fatos  trazidos  e atualizados  para  a conjuntura vigente.
    
Geralmente, o autismo é conceituado como fase da força.  E  é  justamente  tal  força   que deve    se  imbuir  dos  recursos pedagógicos  para   acionar  com  dignidade  todas as  prerrogativas   ditadas  pela   educação especial na   construção de um  mundo  renovado para o autista. 

Há de se convir que  o autismo  somente  atua  nesta  linha  especial,  impulsionado  pela   força,  se  teve  como suporte  a   experiência  madura  naturalmente  vivida  pela  família na  qual  se  reabasteceu  e se preparou  para  o desempenho  de    realizações   diversas.  E,  também, se  fez  da  grande  família  universal  o  pedestal  de apoio  para  o  mergulho  de corpo e  alma  no  grande  mar  da existência.  Aí  se  posicionar  e  ganhar a força   suficiente  como  cidadão  ou cidadã   do  mundo, o qual tem  por norma  arregimentar,   colaboradores   conscientes.  Ao  mesmo  tempo,  prontos  em  vontade  e  com o  devido  preparo   para  o enfrentamento  de novas  conquistas   em face às   demandas   de  saudáveis   formas  de vida,    em  substanciosas  expansões.

Assim, a família da criança autista não é mais como um locus de posse e domínio. Ela passa a ser realidade vivencial compartilhada por todos em relações de reciprocidade e mutualidade. Torna-se, em visão global, uma aceitação de transformação (finitude de determinadas funções) para a formação de novas atribuições (os filhos autistas se tornam mais  independentes e passam a assumir outros papéis). A família  do autista sempre terá, que aprender a desenhar, cortar e costurar,  a mesma filosofia moderna, do direito de liberdade, fraternidade e prosperidade. A verdade constitucional e fundamental deveria envolver  a chamada dignidade humana para  todos os seres autistas do planeta. Ninguém poderia estar só, e, portanto, todos abarcados pelo casulo familiar e pela sua perpetração na espécie humana. Ninguém no Globo é uma ínsula. Os direitos familiares dos autistas envolvem a educação e ampliam seus campos de incidência.  Mas as famílias ainda estão aquém do preceito fundamental da existência no planeta: a vida.
Os profundos pensamentos sobre a Educação, propostos por filósofos antigos e de outros séculos da Grécia, são subsídios de correta penetração em relação ao aprimoramento do  indivíduo.  Todos os indivíduos carregam em suas mentes  o  convite  às  novas   escaladas  vivenciais.  Alguns, portanto, se  atrasam  neste  impulso,  porém  jamais  perderão  a  oportunidade do  avanço  para novas   conquistas.  A oportunidade de educação e de frequentar uma escola especial transformam a vida do indivíduo. O que acontece quando a Educação  proporciona uma  nova  visão  existencial   sobre o autismo,  para  uma  atitude coerente  com o  bem comum,   a  pessoa aceita  o  compromisso de mudança e  se integra  na sociedade ajustada  aos  padrões  a  ela  coerentes. A escola especial mais uma vez é a diretamente responsável para acompanhar o autista em todas as mudanças que perpassam em sua vida educacional e o transforma em um ser vivente socializado para o trabalho e para a integralização com o ambiente.   Uma  vez transformado  o  quadro indesejável, o  resgate  se estabelece   em lucro em medidas  pessoais e  um  avanço  para  a sociedade  que  espera   do autista  o  seu  enquadramento  no  contexto com novas atitudes  comportamentais.  Sabe-se que  a  escola especial é  constituída pelos  hábitos  adquiridos  por intermédio  de um esforço e de um trabalho  constante  do indivíduo,  cuja   aprendizagem  e  transformações se realizam   em  valores  preferenciais. É muito mais fácil  para o autista viver bem se se encontrar bem, nos relacionamentos saudáveis, no conforto de uma vida  plena, com modelos exclusivos da Confecção Infantil;  o que pode  ocorrer sempre   a  partir da  experiência  compreendida entre  o  antes  e o depois,   coincidente  com  a  transformação  das etapas que a própria escola especial ensina aos seus alunos autistas.   Quando é atualizada  uma norma de  vida  amparada  pela  educação especial,  de acordo com  o que é estabelecido  pela  sociedade, o  autista adquire o  privilégio de ser aceito  e ao mesmo  tempo  respeitado como cidadão  desejável  e atuante no meio em que  convive .
   
Nenhum alfinete ou agulha perde   a linha   escolhida  para o Corte e Costura.  A criança autista sempre  é  a beneficiária  imediata.  Tudo acontece  de bom para  o  grupo  de indivíduos   unido  por  um  ideal  maior do trabalho, da educação e da juventude.   Todos  estarão na  mobilização  construtiva  do  bem  comum.  Metaforicamente,  são considerados  como a  árvore  frutífera  na  qual,  troncos  e galhos  unidos  e, mantida  pela  seiva  do   trabalho, oferece   o fruto  sustentável  para  a  vida.   A educação especial como um fator  interno,  vivenciada   na  mente  humana,  constitui-se  em  valores  de  importância  fundamental   na criação de  laços   propostos  ao  bom  relacionamento  entre  as  pessoas. Com os autistas nada acontece de diferente. São pequenos seres que estão ali para serem burilados e amados.  O  autista educado  regularmente torna-se sensível  em  suas  atitudes  em  relação  ao  trato   com   o  semelhante.  E isto modifica toda uma existência da Costura, que poderá se transformar em Alta Costura, até as hierarquias imagináveis.
    
Ninguém escapa da responsabilidade  de  criar  novas  formas  de vida, de aprendizagem para sua prova espiritual,   de mudar  os moldes da costura para se ajustar  ao  novo  painel  da existência que o autista quer, subconscientemente,  viver. E se há desvio da função dos moldes  existenciais,  por  certo,   a  própria  Confecção  se   encarregará  da  reparação. Não  pode haver falha  na  construção  da  sociedade para o autista. Numa visão  retroativa  em  relação  à  construção   da   história  da  humanidade,  percebe-se  uma verdade  relativa  à  dinâmica desta  evolução. 

Portanto, como pode  o autista  avançar  na  sua linha  existencial  do Departamento Autismo sem elevar  os seus  passos  na  escalada? A resposta para tal molde é básica.  Só se realiza  com o  esforço  extraído  do manancial  da   educação especial  em que terapeutas e professores, juntamente com os pais, proporcionarão.  O Departamento Autismo  traz  em  si  todos  os   jeitos  e  os  modos, para a   construção  da  vida  consciente  e progressiva,  rumo  à  transcendência.    Desta forma, amadurece  e  cria  novos horizontes para   o atendimento a  todos  anseios  do aluno autista.  Para corrigir os  percalços   surgidos na  construção  da caminhada  humana  e para  incorporar  valores  necessários  ao  acréscimo  de virtudes,  somente  a  educação especial pode  assessorar tais  atitudes. O  equilíbrio  de  uma  vida  social  sem conflito  e  relativamente  mantida  nos  moldes  pacíficos  da  comunidade  gerenciadora  do  bem  comum que só se consegue na aprendizagem do  autismo. O autismo é um manancial de aprendizagem e ensino especial.
      
Tudo realizado nos padrões da seguridade  pedagógica para o Departamento Autismo,  torna-se   patrimônio  que  resiste  ao  tempo  e se multiplica  na  razão  do  valor  conquistado.  E todas  as atitudes  nobres  não   contêm  o  germe  do fracasso. Podem  até  se transformar  de acordo  com  a mudança  de gosto  e de novas  aptidões,  porém  são  conservadas  sem  perderem  a vitalidade  do  radical  que  lhe  serviu  de base  ou de origem   na  manutenção  da  espécie.

“Por isto, alunos do curso, e por muito mais, vocês deverão aprender este primeiro molde”. “Leiam e releiam o texto. Esta é apenas a primeira lição. Muitas outras virão. Nos professores do Departamento Autismo lhes desejamos boas vindas e eternas aprendizagens. Este é um curso que nunca estagna, sempre se vitaliza”.

“Você, Alfinete, marque o território. Você, Agulha, agrega-se à linha tênue do autismo e faça a primeira, a segunda, a infinita costura. E você  Linha, que quer cogitar  ser tênue, mas com Tenacidade, procure-se não se arrebentar. Tudo o que já foi costurado e produzido deve permanecer em seus corações, mas também na costura bem produzida”. Torne-se forte, e ao mesmo tempo delicada.

Assim, “alunos, após estas primeiras lições, estaremos prontos para conhecer o Departamento Autismo”.

Os alunos do Corte & Costura respiraram ofegantes. Um olhou para outro e sentiram o peso da responsabilidade. Foi sentido, mas não desistido. O Alfinete comentou com a agulha: “o Departamento Autismo, realmente, tem uma linha tênue”. A Agulha respondeu: “O estudo é o preparo”. A Linha deu o seu primeiro ponto sem nada dizer. Queria ser tênue de qualquer maneira.









  



sexta-feira, 1 de junho de 2012

A marca do desencontro

A marca do desencontro


Seres humanos têm disposição inata para relacionamentos e comunicação: somos sensíveis às expressões faciais, reagimos a elas. Nas crianças autistas, no entanto, algo falha nesse contato inicial – correlato da primeira mamada teórica de D. Winnicott


© LES JORGENSEN/PHOTONICA - WIDE IMAGES







Com Freud a neurose infantil apresentou-se como modelo do funcionamento da mente humana, tendo o complexo de Édipo como eixo organizador do entrelace das disposições inconscientes sobre a realidade. No entanto, como afirma o ex-presidente da International PsychoanalyticalAssociation (IPA) Serge Lebovici, psicanalistas contemporâneos de crianças vêm mostrando a importância de um segundo paradigma: o autismo infantil. Essa intrigante afirmação lançanos no campo das construções metapsicológicas provocadas pelo contato com a questão do autismo. Segundo o psicanalista inglês Donald Winnicott, há um longo percurso a ser feito antes que seja atingido o estágio de fusão entre mãe e bebê – fundamental para o desenvolvimento saudável. Ou seja, o estado indiscriminado que Winnicott descreve como matriz das primeiras relações mãe–bebê não é um dado inato, mas uma construção que se dá a partir de um primeiro patamar de desenvolvimento. O autismo denuncia essa necessidade de construção prévia, já que é uma condição em que, justamente, esse desenvolvimento fracassa e a fusão, a reciprocidade e comunicação mútua não ocorrem.



O filósofo e psicanalista Pierre Fédida concebe o autismo como “um estado de auto-erotismo sem Eros”. Assim como Sigmund Freud, e tal qual retomado posteriormente pela psicanalista francesa Marie-Christine Laznik, entendemos que, num primeiro momento, o bebê lança-se ao mundo em busca de um outro que satisfaça suas urgências instintuais. Posteriormente, quando as necessidades (de alimentação, por exemplo) não são imediatamente respondidas, a criança retorna para si, num movimento alucinatório de autosatisfação em que reedita o prazer que outrora obteve no contato com outra pessoa. Nesse segundo momento, o bebê volta-se para si impregnado do erotismo que lhe foi oferecido antes. Esse erotismo – ou seja, palavras, desejos e sensações que os outros deixaram impressos nele – é introjetado e transformado criativamente em pensamento.

© AMANDA ROHDE/ISTOCKPHOTO



EM BUSCA de auto-satisfação, o bebê se volta para si mesmo e reedita o prazer que teve antes, no contato com o outro



SEM TRAÇO DO OUTRO

O livro Monólogos da infância, de Maria Francisca Lier de Vitto, dá continuidade à linha de pesquisa desenvolvida pela lingüista Ruth Weir, autora de Language in the crib, que atenta para as “conversas de berço” de crianças de 2 a 3 anos. Meninos e meninas nessa faixa etária são flagrados reproduzindo falas que lhes foram dirigidas durante o dia e, ao reproduzi-las, reeditam-nas, em plena “fabricação” de material para sonhar e pensar. As crianças de De Vito nos dão testemunho de um processo que se instalou nos primeiros momentos de vida, marcado por essa busca – encontro seguida de recolhimento organizador.



Um exemplo do monólogo de berço foi registrado no livro de De Vitto: “Num fala no meu nome/ Num fala no teu nome/ Num fala... midanoni/ Num fala...mianomi/ Num fa'a... midanomi/ Num fala no... nomi”, murmura Camilla, brasileira, 2 anos e 5 meses, transformando a fala de outra pessoa em idioma próprio.



Nos autistas inacessíveis isso não se dá. Fédida nos conta que, neles, a volta a si mesmo não traz marcas de investimentos eróticos, feitos por outras pessoas. É um “virar-se para si” sem traços de alteridade. É o que ele nomeia auto-erotismo sem Eros.



O que falha nos estados autísticos? Há algo nesse primeiro momento de busca de um outro que parece não transcorrer a contento. Examinemos então esse momento inicial no microscópio para entendermos mais sobre esses tempos pré-fusionais, pré-relacionais ou pré-bidimensionais.

© ANATOLY TIPLYASHI/123RF



CRIANÇAS procuram contato afetivo com pessoas que cuidam delas: rostos funcionam como mapas de navegação



É notório para estudiosos das primeiríssimas relações que bebês vêm “munidos de um dispositivo” de procura e convocação de outro ser humano. Neuroembriologistas mostram que a região cerebral responsável pela identificação e escrutinamento de faces humanas é uma das únicas que já está pronta desde o nascimento. A criança nasce em posição de abertura para relação com um outro e, de fato, busca rostos humanos. Ao encontrá-los, os focaliza e passa a tê-los como “mapa de navegação”. Bebês são sensíveis às expressões faciais de seus cuidadores, reconhecem-nas e reagem a essas “bússolas de localização”.



Ao encontrar o outro, o bebê põe-se em estado de permeabilidade: essa é a disposição inata para relação e comunicação. Diferentes autores, de variadas abordagens, versaram sobre essa disposição, e encontramos na literatura as seguintes nomeações: “outro virtual”, de S. Braten, “permeabilidade biológica ao significante”, nas palavras de Maria Cristina Kupfer, ou ainda o termo “pré-concepção do objeto”, usado por Gilberto Safra.



Mas para que a procura se transforme em encontro essa face que o bebê descobre precisa se voltar para ele e se relacionar com ele. É esse investimento do cuidador em direção à criança que Manoel Tosta Berlinck, retomando Fédida, chama de erotização. E são esses elementos de acréscimo que se transformarão em matéria pensante no momento seguinte, de recolhimento. Nessa descoberta-encontro, o bebê não só conhece o outro, sintonizando-se, por exemplo, com suas expressões faciais, como também passa a conhecer a si mesmo pelo olhar, pela fala e pelo gestual que lhe são endereçados.



Nas crianças autistas, alguma coisa nesse primeiríssimo contato – correlato da primeira mamada teórica de Winnicott – falha. É possível conceber a etiologia do autismo pautada em dois pressupostos: o da interdependência do orgânico e do ambiental, e o do valor determinante, para a constituição da relação mãe–bebê, tanto do bebê e da mãe quanto do que se cria no contato de um com o outro.

© JAMIE WILSON/123RF



VÁRIOS AUTISMOS: muitas vezes é difícil discriminá-los das psicoses infantis



O autismo pode apoiar-se tanto em falhas orgânicas quanto ambientais, ou ainda em falhas orgânico-ambientais, já que sustentamos uma visão do ser humano que suporta a interdependência e o entrelaçamento do orgânico e do psíquico. Nas palavras do psicanalista Alfredo Jerusalinsky, “o aparecimento tanto de traços como de quadros autistas está inteiramente vinculado ao desequilíbrio do encontro entre o agente materno com a criança; este equilíbrio depende, por um lado, do status psíquico deste agente e, por outro, das condições constitucionais da criança para se apropriar dos registros imaginários simbólicos que entram no jogo do vínculo”.



DEPRESSÃO OU DISTRAÇÃO

Vamos nos esforçar na construção de hipóteses etiológicas com o intento de delinear melhor o campo da vivência autista. Todas as possibilidades apresentadas são construídas, por um lado, com base nos desdobramentos da lógica da metapsicologia aqui desenvolvida e, por outro (e isso é importante), partindo da implicação do analista na clínica com crianças autistas. Podemos conceber que o bebê, por alguma falha orgânica e/ou psíquica, não se ponha em estado de busca por não ter como pressuposto a existência de um outro para o contato.



Podemos ainda pensar em uma situação em que esse outro significativo não esteja disponível para ser encontrado – como pode ser o caso em mães fortemente deprimidas no pós-parto ou que por quaisquer outras razões psíquicas, orgânicas e/ou ambientais não possam oferecer-se e estar mentalmente presentes para o encontro com o bebê.



Ou bem não se busca, ou bem não se encontra. Não podemos deixar, contudo, de notar que pode haver desencontro entre a necessidade específica de um determinado bebê e as condições de presença de uma determinada mãe. Um bebê mais distraído pode pedir uma mãe um tanto mais presente para que o encontro se dê; ou ainda uma mãe deprimida, caso encontre um bebê bastante responsivo e vivaz, pode ser retirada por ele de sua retração depressiva. Ou seja, não são apenas os elementos isolados, a criança e o cuidador, que devem ser considerados, mas a interdependência deles.

BRIAN MCENTIRE/DREAMSTIME



CONVERSA PRECOCE: os pequenos costumam reproduzir falas que lhes foram dirigidas pelos adultos



Quando o encontro primordial não se dá, o primeiro elo do circuito pulsional constitutivo não surge. Esse não-encontro parece estar na fundação dos ditos autistas inacessíveis, de difícil contato (out of reach) ou autistas “de carapaça”, tal qual formulou Francês Tustin, em 1977.



São muitos os autismos, e com essa afirmação nos alinhamos a diversos autores contemporâneos que se dedicam à questão, tais como Sue Reid e Anna Alvarez, Paulina Rocha e Ana Elizabeth Cavalcanti, Jean-Noel Trouvé, Marie-Christine Laznick. Esses autores falam da importância de conceber um espectro autista que comporte uma variedade etiológica e caracteriológica.



Jean-Noel Trouvé afirma que “fica difícil separar clinicamente” os autismos do grupo mais polimorfo das psicoses infantis. Focalizo nesse texto duas caracterizações opostas nos extremos do continuum autista: os indivíduos inacessíveis e os pós-autistas ecolálicos. Estes últimos apresentam-se em zona de intersecção com os fenômenos psicóticos.



O campo relacional de que vínhamos falando diz respeito aos autistas “de carapaça” ou inacessíveis, que na presença de outras pessoas permanecem absortos em atividades que não incluem os demais de modo algum, parecem ignorar a existência dos outros e tratá-los como se fossem parte da mobília.

Falta ainda nos debruçar sobre os ditos pós-autistas ecolálicos. Por ecolalia entendemos a tendência a repetir sons e palavras. Embora cientes de uma eventual imprecisão etimológica, podemos estender a compreensão desse conceito ao analisar a reprodução de outros comportamentos, como falas e desenhos. Essas crianças realizam algum contato, sem no entanto conseguir se desvencilhar da literalidade do que lhes é oferecido. Emitem falas que parecem nada dizer, são capazes de reproduzir ipsis litteris conversas, músicas ou programas de rádio e apegam se a rituais e estereotipias.



DOSES HOMEOPÁTICAS

Voltemos ao circuito pulsional de que falávamos acima. Num terceiro momento do circuito pulsional descrito por Laznik, o bebê se oferece como objeto para seu cuidador, isto é, convoca a relação cuidadora, já do lugar daquele que é cuidado e desejado: se oferece para ser beijado, mordido, amado. Mostra, com isso, ter introjetado não apenas os elementos que compõem a si mesmo e ao outro, como também a configuração desse relacionamento.



Penso que nos casos dos pacientes que chamamos de ecolálicos é algo no caminho do segundo elo que se quebra. Ao voltar do encontro com o outro significativo, o sujeito pós-autista vê-se às voltas com a impossibilidade de processar as marcas que esse encontro lhe trouxe, seja porque seu aparato introjetivo é falho, seja porque o encontro se deu de forma excessiva e traumática, deixando restos indigeríveis.



Winnicott nos fala da imaturidade do ego do bebê, que, justamente por essa característica, precisa ter suas necessidades atendidas e sustentadas por outra pessoa sintonizada com ele. A mãe (ou qualquer outra figura significativa) funciona como filtro para garantir que o mundo seja apresentado à criança em doses homeopáticas e, desse modo, passíveis de serem digeridas e apropriadas por ele. Se, por algum infortúnio, esse anteparo não se oferece e o mundo é apresentado em doses cavalares, a criança parece então se ver impossibilitada de captar esses “restos de encontro” de maneira satisfatória. Caracteriza-se assim uma aproximação traumática para a criança.

Podemos ainda contar com a conjectura de um primeiro encontro em que o lugar do bebê não lhe seja devolvido. Isto é: ele volta prenhe de elementos identificatórios do outro, mas sem nenhum traço que o localize nessa fala, incapaz de se inserir no discurso e de retornar ao contato significativo, no lugar de objeto de desejo do outro, como vemos acontecer no terceiro momento do modelo de circuito pulsional de Laznik. A inversão pronominal, tão característica das falas ecolálicas, parece denunciar a dificuldade de conceber os lugares de um “eu” e um “você”, simultaneamente diferentes e comunicantes – moldura de sustentação da fala. Temos a impressão de que o “eu” se encontra justaposto ao “você”, sem nenhum espaço de diferenciação. São características do contato ecolálico o clamor por repetição e a excessiva proximidade com o objeto, presente nas reproduções sem lacunas.



RECORTAR E COLAR

Essas repetições sem lacunas produzem a estranha experiência de termos diante de nós alguém que personifica outra pessoa, como se a incorporasse. Lembro-me de ouvir uma menina ecolálica, de 6 anos, repetir a fala de sua avó de 65 anos, em tudo igual a ela: palavras, entonação e textura da voz. Era muito estranho ver uma garotinha soar exatamente como uma senhora, contrariando as leis do desenvolvimento da anatomia e fisiologia do aparato vocal.



Deparamos aqui com duas polaridades: ora a exclusão do inacessível, ora a invasão que se manifesta na ecolalia, ambas extremamente freqüentes na clínica de crianças autistas. Voltemos à afirmação inicial de Lebovici de que o estudo do autismo infantil revolucionou o campo psicanalítico. Diante da tendência à inacessibilidade, ao isolamento da exclusão, psicanalistas resgataram a necessidade de eles, assim como a mãe, convocar seu paciente ao contato. Nessa linha, Anne Alvarez construiu o conceito de reclaiming (reivindicação), inspirada pela observação de que, diante de bebês retraídos, distantes e alheios, a mãe “suficientemente boa” põe-se a chamar sua atenção por meio de movimentos burlescos, que exageram os gestos humanos, amplificando entonações e expressões faciais. Para aquele que encontra dificuldade em focar, tudo é amplificado para que algum contato se dê – e alguma figura se forme. É essa a função “reclamante” do analista na clínica com pessoas autistas. Dessa maneira, os conceitos de reserva do analista ganham nessa clínica outras dimensões, para além da neutralidade clássica.

Já o fenômeno ecolálico torna o analista ciente da necessidade do paciente autista de viver em câmera lenta a constituição da possibilidade de contato com um outro, de assim ampliar e reter a experiência.



A bióloga e engenheira americana autista Temple Grandin conta em sua autobiografia, Uma menina estranha (Companhia das Letras, 1999), que sua mente era como um vídeo que reproduzia incessantemente as imagens que captava ao redor, e que só se tornou capaz de pensar quando se interessou pelo funcionamento do mecanismo do aparelho de reprodução de vídeos, que permitia pausas. Foi assim que, com muito esforço, ela, de repente, se viu capaz de interromper o fluxo contínuo de impressões externas que caracterizava seu aparato mental. Fazemos referência aqui à necessidade de o “eu” se inserir nas reproduções mnemônicas totalizantes, recortando e tornando possível o esquecimento e apagamento – mas antes disso a experiência de contato precisa se constituir como uma certeza para o paciente.



O caminho é duplo, portanto: auxilia-se o paciente a se certificar de sua possibilidade de estar em contato com outra pessoa, permanecendo emaranhado em suas reproduções o tempo necessário, sem nunca, no entanto, se esquecer de que por trás dessa camada alienante, que caracteriza a ecolalia, há um sujeito que escolhe e fala, utilizando-se de suas “colagens”.



CONCEITOS-CHAVE

- O filósofo e psicanalista Pierre Fedida concebe o autismo como “um estado de auto-erotismo sem Eros”. Freud e a psicanalista francesa Marie-Christine Laznik entendem que, num primeiro momento, o bebê lança-se ao mundo em busca de um outro que satisfaça suas urgências instintuais.



- Quando esse contato primordial não ocorre, o primeiro elo do circuito pulsional constitutivo não surge. Esse não-encontro parece estar na fundação dos ditos autistas inacessíveis, de difícil contato (out of reach) ou autistas “de carapaça”.



- É possível conceber a etiologia do autismo com base em dois pressupostos: o da interdependência de aspectos orgânicos e ambientais, e o do valor determinante da constituição da relação mãe–bebê, tanto individualmente quanto para o contato de um com o outro. O autismo pode apoiar-se tanto em falhas orgânicas quanto ambientais, ou ainda em falhas orgânico-ambientais.



PARA CONHECER MAIS

Do silêncio ao eco: autismo e clínica psicanalítica. Luciana Pires. Edusp, 2007.



Os monólogos da criança: “delírios da língua”. M. F. Lier de Vitto. Educ, 1998.



Comunicação e falta de comunicação levando ao estudo de certos opostos (1963). D. Winnicott, em O ambiente e os processos de maturação – Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional, Artes Médicas, 1983.



Autisme et psychoses de l'enfant. Frances Tustin. Seuil, 1977.



Vídeos:



Beautiful minds, a voyage into the brain, parte da série Expedition ins Gehirn, produzido por Colourfield Productions, Dortmund, Alemanha, no Youtube.



Desejo por ordem, da série O Viajante da Mente, criada por Oliver Sacks, GNT , Direção de Christopher Rawlence.

Luciana Pires é psicóloga, psicanalista, especialista em psicanálise com crianças, adolescentes e famílias pela Tavistock Clinic na Inglaterra, mestre em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro Do silêncio ao eco: autismo e clínica psicanalítica (Edusp, 2007)





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DEPRESSÃO OU DISTRAÇÃO

Vamos nos esforçar na construção de hipóteses etiológicas com o intento de delinear melhor o campo da vivência autista. Todas as possibilidades apresentadas são construídas, por um lado, com base nos desdobramentos da lógica da metapsicologia aqui desenvolvida e, por outro (e isso é importante), partindo da implicação do analista na clínica com crianças autistas. Podemos conceber que o bebê, por alguma falha orgânica e/ou psíquica, não se ponha em estado de busca por não ter como pressuposto a existência de um outro para o contato.



Podemos ainda pensar em uma situação em que esse outro significativo não esteja disponível para ser encontrado – como pode ser o caso em mães fortemente deprimidas no pós-parto ou que por quaisquer outras razões psíquicas, orgânicas e/ou ambientais não possam oferecer-se e estar mentalmente presentes para o encontro com o bebê.



Ou bem não se busca, ou bem não se encontra. Não podemos deixar, contudo, de notar que pode haver desencontro entre a necessidade específica de um determinado bebê e as condições de presença de uma determinada mãe. Um bebê mais distraído pode pedir uma mãe um tanto mais presente para que o encontro se dê; ou ainda uma mãe deprimida, caso encontre um bebê bastante responsivo e vivaz, pode ser retirada por ele de sua retração depressiva. Ou seja, não são apenas os elementos isolados, a criança e o cuidador, que devem ser considerados, mas a interdependência deles.

BRIAN MCENTIRE/DREAMSTIME



CONVERSA PRECOCE: os pequenos costumam reproduzir falas que lhes foram dirigidas pelos adultos



Quando o encontro primordial não se dá, o primeiro elo do circuito pulsional constitutivo não surge. Esse não-encontro parece estar na fundação dos ditos autistas inacessíveis, de difícil contato (out of reach) ou autistas “de carapaça”, tal qual formulou Francês Tustin, em 1977.



São muitos os autismos, e com essa afirmação nos alinhamos a diversos autores contemporâneos que se dedicam à questão, tais como Sue Reid e Anna Alvarez, Paulina Rocha e Ana Elizabeth Cavalcanti, Jean-Noel Trouvé, Marie-Christine Laznick. Esses autores falam da importância de conceber um espectro autista que comporte uma variedade etiológica e caracteriológica.



Jean-Noel Trouvé afirma que “fica difícil separar clinicamente” os autismos do grupo mais polimorfo das psicoses infantis. Focalizo nesse texto duas caracterizações opostas nos extremos do continuum autista: os indivíduos inacessíveis e os pós-autistas ecolálicos. Estes últimos apresentam-se em zona de intersecção com os fenômenos psicóticos.



O campo relacional de que vínhamos falando diz respeito aos autistas “de carapaça” ou inacessíveis, que na presença de outras pessoas permanecem absortos em atividades que não incluem os demais de modo algum, parecem ignorar a existência dos outros e tratá-los como se fossem parte da mobília.

Falta ainda nos debruçar sobre os ditos pós-autistas ecolálicos. Por ecolalia entendemos a tendência a repetir sons e palavras. Embora cientes de uma eventual imprecisão etimológica, podemos estender a compreensão desse conceito ao analisar a reprodução de outros comportamentos, como falas e desenhos. Essas crianças realizam algum contato, sem no entanto conseguir se desvencilhar da literalidade do que lhes é oferecido. Emitem falas que parecem nada dizer, são capazes de reproduzir ipsis litteris conversas, músicas ou programas de rádio e apegam se a rituais e estereotipias.



DOSES HOMEOPÁTICAS

Voltemos ao circuito pulsional de que falávamos acima. Num terceiro momento do circuito pulsional descrito por Laznik, o bebê se oferece como objeto para seu cuidador, isto é, convoca a relação cuidadora, já do lugar daquele que é cuidado e desejado: se oferece para ser beijado, mordido, amado. Mostra, com isso, ter introjetado não apenas os elementos que compõem a si mesmo e ao outro, como também a configuração desse relacionamento.



Penso que nos casos dos pacientes que chamamos de ecolálicos é algo no caminho do segundo elo que se quebra. Ao voltar do encontro com o outro significativo, o sujeito pós-autista vê-se às voltas com a impossibilidade de processar as marcas que esse encontro lhe trouxe, seja porque seu aparato introjetivo é falho, seja porque o encontro se deu de forma excessiva e traumática, deixando restos indigeríveis.



Winnicott nos fala da imaturidade do ego do bebê, que, justamente por essa característica, precisa ter suas necessidades atendidas e sustentadas por outra pessoa sintonizada com ele. A mãe (ou qualquer outra figura significativa) funciona como filtro para garantir que o mundo seja apresentado à criança em doses homeopáticas e, desse modo, passíveis de serem digeridas e apropriadas por ele. Se, por algum infortúnio, esse anteparo não se oferece e o mundo é apresentado em doses cavalares, a criança parece então se ver impossibilitada de captar esses “restos de encontro” de maneira satisfatória. Caracteriza-se assim uma aproximação traumática para a criança.

Podemos ainda contar com a conjectura de um primeiro encontro em que o lugar do bebê não lhe seja devolvido. Isto é: ele volta prenhe de elementos identificatórios do outro, mas sem nenhum traço que o localize nessa fala, incapaz de se inserir no discurso e de retornar ao contato significativo, no lugar de objeto de desejo do outro, como vemos acontecer no terceiro momento do modelo de circuito pulsional de Laznik. A inversão pronominal, tão característica das falas ecolálicas, parece denunciar a dificuldade de conceber os lugares de um “eu” e um “você”, simultaneamente diferentes e comunicantes – moldura de sustentação da fala. Temos a impressão de que o “eu” se encontra justaposto ao “você”, sem nenhum espaço de diferenciação. São características do contato ecolálico o clamor por repetição e a excessiva proximidade com o objeto, presente nas reproduções sem lacunas.



RECORTAR E COLAR

Essas repetições sem lacunas produzem a estranha experiência de termos diante de nós alguém que personifica outra pessoa, como se a incorporasse. Lembro-me de ouvir uma menina ecolálica, de 6 anos, repetir a fala de sua avó de 65 anos, em tudo igual a ela: palavras, entonação e textura da voz. Era muito estranho ver uma garotinha soar exatamente como uma senhora, contrariando as leis do desenvolvimento da anatomia e fisiologia do aparato vocal.



Deparamos aqui com duas polaridades: ora a exclusão do inacessível, ora a invasão que se manifesta na ecolalia, ambas extremamente freqüentes na clínica de crianças autistas. Voltemos à afirmação inicial de Lebovici de que o estudo do autismo infantil revolucionou o campo psicanalítico. Diante da tendência à inacessibilidade, ao isolamento da exclusão, psicanalistas resgataram a necessidade de eles, assim como a mãe, convocar seu paciente ao contato. Nessa linha, Anne Alvarez construiu o conceito de reclaiming (reivindicação), inspirada pela observação de que, diante de bebês retraídos, distantes e alheios, a mãe “suficientemente boa” põe-se a chamar sua atenção por meio de movimentos burlescos, que exageram os gestos humanos, amplificando entonações e expressões faciais. Para aquele que encontra dificuldade em focar, tudo é amplificado para que algum contato se dê – e alguma figura se forme. É essa a função “reclamante” do analista na clínica com pessoas autistas. Dessa maneira, os conceitos de reserva do analista ganham nessa clínica outras dimensões, para além da neutralidade clássica.

Já o fenômeno ecolálico torna o analista ciente da necessidade do paciente autista de viver em câmera lenta a constituição da possibilidade de contato com um outro, de assim ampliar e reter a experiência.



A bióloga e engenheira americana autista Temple Grandin conta em sua autobiografia, Uma menina estranha (Companhia das Letras, 1999), que sua mente era como um vídeo que reproduzia incessantemente as imagens que captava ao redor, e que só se tornou capaz de pensar quando se interessou pelo funcionamento do mecanismo do aparelho de reprodução de vídeos, que permitia pausas. Foi assim que, com muito esforço, ela, de repente, se viu capaz de interromper o fluxo contínuo de impressões externas que caracterizava seu aparato mental. Fazemos referência aqui à necessidade de o “eu” se inserir nas reproduções mnemônicas totalizantes, recortando e tornando possível o esquecimento e apagamento – mas antes disso a experiência de contato precisa se constituir como uma certeza para o paciente.



O caminho é duplo, portanto: auxilia-se o paciente a se certificar de sua possibilidade de estar em contato com outra pessoa, permanecendo emaranhado em suas reproduções o tempo necessário, sem nunca, no entanto, se esquecer de que por trás dessa camada alienante, que caracteriza a ecolalia, há um sujeito que escolhe e fala, utilizando-se de suas “colagens”.



CONCEITOS-CHAVE

- O filósofo e psicanalista Pierre Fedida concebe o autismo como “um estado de auto-erotismo sem Eros”. Freud e a psicanalista francesa Marie-Christine Laznik entendem que, num primeiro momento, o bebê lança-se ao mundo em busca de um outro que satisfaça suas urgências instintuais.



- Quando esse contato primordial não ocorre, o primeiro elo do circuito pulsional constitutivo não surge. Esse não-encontro parece estar na fundação dos ditos autistas inacessíveis, de difícil contato (out of reach) ou autistas “de carapaça”.



- É possível conceber a etiologia do autismo com base em dois pressupostos: o da interdependência de aspectos orgânicos e ambientais, e o do valor determinante da constituição da relação mãe–bebê, tanto individualmente quanto para o contato de um com o outro. O autismo pode apoiar-se tanto em falhas orgânicas quanto ambientais, ou ainda em falhas orgânico-ambientais.



PARA CONHECER MAIS

Do silêncio ao eco: autismo e clínica psicanalítica. Luciana Pires. Edusp, 2007.



Os monólogos da criança: “delírios da língua”. M. F. Lier de Vitto. Educ, 1998.



Comunicação e falta de comunicação levando ao estudo de certos opostos (1963). D. Winnicott, em O ambiente e os processos de maturação – Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional, Artes Médicas, 1983.



Autisme et psychoses de l'enfant. Frances Tustin. Seuil, 1977.



Vídeos:



Beautiful minds, a voyage into the brain, parte da série Expedition ins Gehirn, produzido por Colourfield Productions, Dortmund, Alemanha, no Youtube.



Desejo por ordem, da série O Viajante da Mente, criada por Oliver Sacks, GNT , Direção de Christopher Rawlence.

Luciana Pires é psicóloga, psicanalista, especialista em psicanálise com crianças, adolescentes e famílias pela Tavistock Clinic na Inglaterra, mestre em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro Do silêncio ao eco: autismo e clínica psicanalítica (Edusp, 2007)



http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/a_marca_do_desencontro_imprimir.html

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domingo, 27 de maio de 2012

Mãe ensina médicos a lidar com crianças que sofrem de autismo



Portia Iverson falou durante a Reunião Anual da Academia Americana de Neurologia. Ela também pediu mais pesquisas e novos remédios contra a doença.
Cerca de 200 neurologistas, com anos de experiência em sua área, lotam a sala. Na frente de todos está Portia Iverson, de fala pausada, dando explicações detalhadas para a platéia formada quase que exclusivamente por pessoas com muito mais conhecimento científico do que ela. Mas quem é essa mulher sem formação acadêmica que ousa ensinar cientistas? A resposta é simples: Portia Iverson é mãe.
E não qualquer mãe. Ela é mãe de Dov, um jovem americano diagnosticado aos três anos de idade com autismo severo. Desde que descobriu a doença, Iverson e seu marido se dedicaram à causa das crianças autistas e fundaram uma organização não-governamental que pede mais pesquisas sobre a doença – a CAN, sigla em inglês para “Curem o Autismo Agora”, que também significa algo como “é possível” .
Portia Iverson foi uma das convidadas especiais da Reunião Anual da Academia Americana de Neurologia, em Chicago, nos Estados Unidos. Sua missão? Ensinar os médicos a lidar com crianças autistas, baseada em sua experiência de mais de dez anos cuidando de Dov. E mais: contar os principais problemas que ela enfrenta, para tentar sensibilizar e oferecer informações para novas pesquisas na área. 
Para todos
Os conselhos da americana foram ouvidos por médicos, mas, segundo ela, são para serem seguidos por qualquer pessoa que conviva com autistas. O principal é: “Não aja com a criança como se ela tivesse uma deficiência mental”. “Mesmo com as que têm autismo severo e que parecem não estar ligadas no nosso mundo. Elas podem muito bem estar ouvindo, prestando atenção, entendendo”, diz Iverson.
Ela recomenda que os problemas e as frustrações do autismo não sejam discutidos na frente da criança, mesmo quando ela pareça estar distraída com outra coisa. “Se elas estiverem entendendo vão se assustar mais ou se fechar ainda mais em seu mundo”, afirma.
Outro conselho importante, segundo ela, para médicos e pais, é levar a sério os problemas das crianças. “É tão cansativo cuidar de um autista que às vezes achamos que tudo é culpa da doença. Se a criança está mal humorada, com dor de barriga, com dor de cabeça ou com qualquer outro problema, falamos ‘ah, é só o autismo’. E isso não é bom, porque corremos o risco de deixar passar algum problema sério”, diz. 
Concentração
Ela explica que não adianta querer atrair a atenção da criança quando ela se concentra em alguma coisa. Primeiro, porque ela não tem controle sobre isso. Segundo, porque não se sabe se ela é mais feliz interagindo com os outros do que fechada em seu mundo. “É como quando temos uma crise de compulsão e comemos demais. Alguém gosta disso? É claro que não, mas não podemos nos controlar. Multiplique isso por um milhão e terá o que acontece com as crianças autistas. Aposto que elas preferiam estar brincando com as outras na rua, mas a atração por outras coisas é muito, muito forte”, conta.
Portia Iverson também aproveitou a oportunidade para pedir que os médicos se esforcem na busca por novos remédios e, se possível uma cura. “É extremamente frustrante. Há dias em que Dov acorda, senta na cama e agarra os olhos, se arranha, se coça, grita. É uma coisa que cansa a gente só de olhar. Daí o surto passa e ele volta ao normal. Precisamos de remédios que controlem essas coisas, pelo bem de nossos filhos”, pediu ela.
Fonte: Portal G1

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O AUTISMO E O POTE DE MEL




silvania Mendonça Almeida margarida

O mel é o néctar dos deuses. É o açúcar da natureza. Fez pré-história predatória e depois história no Oriente Médio, no Egito e depois mundo afora. Quando os antigos Egípcios faziam as suas expedições, conservavam a carne em barricas cobertas de mel! A chamada "Lua de Mel" tem a sua origem no costume romano em que a mãe da noiva deixava em cada noite, na alcova nupcial, à disposição dos recém casados, um pote de mel para "repor energias". Esta prática durava toda a lua...

É a delícia que se prova e oferece o sabor magnífico e degustador. Os fazedores de mel, abelhas e formigas trabalham para si, em sociedade, para colher resultados casulados e temperados ao sabor da felicidade.  Diariamente uma abelha percorre 40 km e visita cerca de 7200 flores para produzir 5 gramas de mel. Mas tais insetos não sabem que trabalham para o homem, oferecendo o néctar dos deuses. Trabalham e trabalham. Nada pedem em troca, oferecendo aos indivíduos um alimento de alto valor nutritivo.

É isto mesmo. Formigas na África também fabricam esta bebida dos deuses para suas companheiras de inverno. Reproduzem o mel para alimentar as companheiras no fundo do formigueiro. E não se queixam. E la vai a história do mel com seus exemplos positivos de perfeição.


Provar mel é provar alegria, felicidade.  Exemplo natural para todos os seres viventes. E o que dizer dos favos do mel, da lua de mel, dos arquétipos que o mel inspira. O mel está nas cores delicadas e nos ambientes coloridos. Está nas jóias raras e nos banquetes mais preciosos. Toda situação delicada tem sabor de mel. Nada mais ofuscador e magnífico. O sabor de mel está em toda gastronomia, em todo chá inglês, em toda tradição.  Basta as abelhas consumirem o pólen das flores, encontrarem-se em reunião e produção e pouco tempo depois se descobre o resultado: potes e potes de mel. O mel também inspira oficina de ideias em festas, no ambientes ensolarados e a ideia de adoçar o mundo, com músicas, receitas saborosas e o leite quentinho do adoçado com mel.

E suas outras atribuições? Não há o que falar. O mel é remédio, tem efeito para diversas curas, limpa os pulmões e respirações. E lá se vai. Sempre positivo e lindo! Deliciosa de se contar e provar.  A ação do mel sobre a longevidade humana deve-se não só à sua alta ação energética, mas fundamentalmente às enzimas, às vitaminas e à compleição de elementos químicos, extraordinários para o bom funcionamento do organismo humano. 
E assim, de deleite em deleite, lá vai o mel história afora, transmitindo o seu benefício a todos seres humanos, sem discórdia, adoçando a vida, amenizando atitudes  e encantando com o seu gosto.Mas por que falar tanto em mel, se gostaria mesmo de falar  e escrever sobre autismo! O que tem a ver esta minha comparação sem sentido! Esquisita por assim dizer!

O mel está na boca de todos, na casa de todos e eu nada tenho com isso!  Potes e potes de mel puro são comprados nos supermercados do mundo todos os dias.  E eu com isso?
Poderia eu comprar potes e potes de autismo e adoçar, nem que seja por um só instante, a boca de alguém. Não e não!  A boca não teria jeito, mas o coração sim. Gostaria de adoçar o coração de alguém. Um único coração. Que ele meditasse sobre o que é o autismo.

Dizer para os compradores de mel, que uma criança autista é como o mel que se coloca na mesa e na geladeira. Doce, pura e silenciosa. Os olhos então, meu Deus! Que olhos mais encantadores! Puros e meigos! Inocentes e imaculados!  Deleites de mel!

Dizer aos provadores de mel o seu significado desconhecido, sua história mal-contada. Dizer que o autismo nunca teve uma pré-história. Ensinar que o autismo tem potencialidade de desenvolvimento psicomotor sim. É como uma fábrica de produção de mel. Na sua ingenuidade e nas vivências corporais dos acometidos com o autismo o valor afetivo se instala e modifica nossas vidas.  Há também  o papel dos estímulos ambientais no desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da criança autista.Como separar a metáfora do mel do autismo? Impossível! O mel não é tão-somente o das abelhas, das formigas, dos industrializados. Existe o mel do coração e da alma. Querer conhecer e amar, por assim dizer, se permitir e se envolver.

O Mel que nasce na lá na mais ínfima fibra do ser, que se fortifica contra qualquer doença e passa a conhecer o autismo.

O que dizer sobre a família? Por experiência própria digo que a família passa a buscar e aprender o que até então desconhecia. Mas família que convive com autismo, não precisa tão-somente ensinar. Ela precisa aprender também. Fico a imaginar se a uma família que tem um filho autista consegue aprender todo o atendimento multidisciplinar que o autista precisa!  Sinceramente, eu não consegui. E nas minhas leituras e escritas diárias tenho a reportar que ninguém sabe. Cada dia um novo dia e um novo instante. Esta é minha opinião. Mas o caminho continua.

A proposta da educação e suas competências entram como os recursos mais viáveis do pensamento pedagógicoTodo empenho é válido no processo de mudança dos canais que propiciem a evolução da nossa querida criança autista, adotando como pedestal e como suporte a educação, audácia impreterível da mais expressiva opulência sentimental...

A educação especial entra na listagem dos novos expedientes e de outros que podem potencializar as “abelhas” profissionais em termos de  novas descobertas para o autismo.  No painel em que se insere o autismo, a partir de  idéias inovadoras no campo da educação “a colméia” produzirá mais néctar do conhecimento. O conceito de liberdade para o autista poderá ser acompanhado de disciplina, de expressão individual e direitos naturais. E, porque não dizer? Políticas públicas! Cobrar do Estado o papel que Ele se nega a prestar.

É preciso, no entanto, adequar a aplicação destas idéias em evidência, de forma inteligente, a partir de uma experimentação consciente. Que os resultados apontem com segurança os efeitos  positivos de uma  nova experimentação deste “mel” poderá produzir para nossas crianças, para fortaleza da alma.  Quando digo aqui a palavra “criança” não me refiro à idade cronológica, mas  somente ao fato de existirem nos nossos lares, pequeninos, adolescentes e adultos autistas com olhos de criança, “com sabor de mel”. Este sabor enseja ainda novas idéias na educação.  Livros e livros já foram escritos sobre. São motivos de teses, dissertações de mestrado e tcc’s. Mas ainda não responderam uma única pergunta! Como sustentabilizar a ignorância do Poder Público sobre o autismo!

Certa vez, uma única vez, gostaria de demonstrar as minhas palavras sobre a educação especial para os políticos, mas  eu teria o sabor da revolta e isto não quero. Não tenho vergonha de dizer que já sofri muito e ainda mantenho a ideia que preciso colher “mel”, vários “potes de mel” sobre o autismo. Oportunidades existem.

Mas a educação está aí e existem educadores “abelhas” que arquitetam muito bem a nossa sociedade. Portanto, consecutivamente, o autista reverencia a extensão lúdica e brincalhona da sua aprendizagem. Possibilita-lhe o aparecimento de suas díspares linguagens, sua leitura do mundo e sua extrapolação para se mostrar como “néctar de suas flores”, e,  não precisarão de palavras.  O professor, os profissionais terapeutas, os pais como mediadores, irão proporcionar a qualidade escolar da verdadeira inclusão, da verdadeira interação do autista com o mundo. E a continuidade da sua imagem e da sua expressão corporal.

O material didático na educação especial e todo aparato de desenvolvimento, previsto em currículo interdisciplinar, proporcionarão  aos autistas a iniciação ao processo de alfabetização e a aquisição de importantes valores que servirão de alicerce na formação de suas personalidades. O autista sabe organizar de forma estereotipada o seu mundo a partir do seu próprio corpo, mas ele sabe. É só investir na produção deste “mel”.

No cotidiano do espaço escolar, sob os novos olhares docentes das “abelhas mães” que dimensionam as imutáveis persecuções do imaginário infantil, elas não deixarão de proteger o seu “mel”,  seus desejos, interesses, elaborações próprias, fantasias, experimentações e seus tateios no mundo. Criança autista também tateia o mundo. Ah! Como tateia!

Há em mim uma latência constante em escrever, escrever sobre o autismo. Mas devo parar. Novamente ler e aprender! Novamente escrever.  Para dizer a verdade, estou agora um pouquinho sem tempo.

Hoje de manhã prometi para o meu filho que iria ao “supermercado comprar um potinho de mel”. Não aquele mel açucarado e falso. Um mel verdadeiro com sabor de “quero mais”  e de certeza que ele voltará a provar de tão saboroso alimento natural. Afinal, o que seria do ”mel” se não existisse em nossas vidas, nossos filhos autistas!


terça-feira, 15 de maio de 2012

Projeto filantrópico ajuda na reabilitação




 


No último domingo comemorou-se o Dia das Mães, mas para a dona de casa Márcia Maria de Barros, 33, o presente chegou há dois meses, quando o filho dela, Luiz Fernando Barros de Amorim, de seis anos, começou a demonstrar afetividade com sorrisos, trocas de olhar e carinhos. Gestos comuns em crianças desta idade, mas raros em um autista. Nando, como é chamado pela mãe, foi diagnosticado aos dois anos de idade, depois que Márcia, que tem outros quatro filhos, percebeu que ele era diferente dos demais.


 


"Com dois anos meus outros filhos já falavam, mas o Nando não. Eu chamava por ele, mas ele não respondia, sempre queria brincar sozinho, não reclamava de nada", lembra.


Foi então que Márcia buscou ajuda profissional. Procurou um neurologista, que diagnosticou Nando como portador de Síndrome de Autismo. O médico encaminhou o menino para tratamento no Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSI), unidade estadual de saúde. Lá a mãe recebeu orientações de como cuidar do filho especial. "Eu trabalhava como auxiliar de limpeza, mas tive que deixar o emprego para ficar tempo integral com o meu filho. Ele precisa de cuidados 24 horas por dia", afirma.


O presente do Dia das Mães de Márcia chegou quando ela conseguiu uma das 15 vagas disponibilizadas pelo projeto de Equoterapia desenvolvido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (SENAR-MT) em parceria com o Espaço Hípico Rancho Dourado, em Cuiabá. A coordenadora da equipe de Pedagogia do SENAR-MT, Tatiana Perondi, explica que o projeto de Equoterapia é filantrópico e por meio dele o SENAR visa proporcionar ao indivíduo o desenvolvimento de suas potencialidades, respeitando seus limites e visando sua integração na sociedade.


"O projeto só pode funcionar por meio de parceria entre o SENAR e os Centros Hípicos, Sindicatos Rurais e/ou Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAEs). Para esse atendimento acontecer o SENAR entra com uma ajuda de custo e o parceiro com a estrutura necessária", completa.


O Espaço Hípico Rancho Dourado definiu que iria disponibilizar um dia da semana, às quartas-feiras, para atender os 15 beneficiários do projeto. Cada um participa de sessões de 30 minutos com o cavalo e mais dois ou três integrantes de equipe disciplinar formada por fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicopedagoga, psicólogo e auxiliares de pista. Nando chegou quieto, alheio ao ambiente a sua volta. Ao subir na égua Lady, deu o primeiro sorriso demonstrando que estava pronto para a sessão de equoterapia. "Ele só aceitou subir no cavalo no terceiro dia, agora já vem todo animado", afirma a mãe empolgada.


Em apenas 60 dias, Márcia já percebeu que Nando estava mais tranquilo, começava a interagir com as pessoas e demonstrar interesse pelo cavalo. "Como ele não fala, percebo os sentimentos dele pela expressão. Quando digo que é hora de ver o cavalo, ele já muda a expressão". E completa: "Meu filho está se desenvolvendo. Estou muito feliz. Não deixo de vir às sessões", diz ao lembrar que para o filho participar da sessão, eles que moram no bairro Parque Sabiá, em Várzea Grande, precisam pegar dois ônibus e caminhar mais 15 minutos até a hípica, são quase duas horas de trajeto.


De acordo com a psicóloga da equipe multidisciplinar que acompanha o tratamento de Nando, Andrea Amude, a percepção da mãe em relação ao tratamento do filho está correta. "Estamos percebendo essas melhoras no Nando. O que é muito positivo. Com apenas dois meses a evolução apresentada por ele é muito rápida", avalia. Para a profissional o principal progresso apresentado pelo menino foi em relação à afetividade. "Sabemos que os autistas têm dificuldades de interação social e durante a última sessão Nando passou a mão na minha cabeça e puxou para perto dele. Isso para uma criança que tem autismo é uma evolução tremenda", compartilha a psicóloga.


O fisioterapeuta Daniel Penha, integrante da equipe multidisciplinar do projeto, explica que a única exigência para a prática da equoterapia é que haja uma recomendação médica, pois não há limite de idade e as indicações da equoterapia são para tratamentos de outras patologias como para pessoas acometidas por paralisia cerebral, Acidente Vascular Cerebral (AVC), problemas neurológicos ou físicos, lesões tóraco-lombares, distúrbios psicológicos, distúrbios mentais, esquizofrenia, depressão, transtorno de ansiedade, Síndrome do Pânico, entre outras. "Muitos pais que não têm a informação sobre a equoterapia acham que os filhos deles vão chegar aqui e simplesmente dar 'uma voltinha a cavalo'. Mas, com o tempo e com o tratamento eles veem a evolução dos praticantes e percebem o quanto a equoterapia é importante, percebem o quanto os filhos melhoram com o tratamento", argumenta.


A proprietária da hípica, Ana Julieta Pompeu de Barros, diz que nestes três anos de parceria com o SENAR já realizou mais de dois mil atendimentos gratuitos voltados à população de baixa renda. Durante esse período, muitas mães tiveram a felicidade de ver seus filhos apresentando melhoras como a experiência que pela qual Márcia está passando. "As mães que conseguem uma vaga para o tratamento de seu filho ficam devotas da equoterapia, ficam gratas pela melhora que os filhos apresentam de forma tão rápida. As mães ficam realmente impressionadas e fazem propaganda boca a boca. Tenho uma fila de espera com mais de 300 pessoas", contabiliza.


Márcia conta que o pai de Nando, Roney Amorim da Silva, 27, é frentista de posto de gasolina e que sem o salário de auxiliar de limpeza que ela recebia o orçamento familiar ficou apertado. "Eu jamais teria condições de manter meu filho na equoterapia. Eu não posso trabalhar para poder cuidar dele. Se não fosse o projeto eu não estaria aqui e ele não teria essa evolução. Agradeço muito por ter esse projeto em nossas vidas", diz.


"A equoterapia é uma terapia cara, por envolver um animal como o cavalo, gasta-se muito com a manutenção. Além disso sempre temos dois profissionais, pelo menos, acompanhando cada praticante. Sabemos que poucas pessoas tem acesso ao tratamento privado", informa a psicóloga. "O projeto do Senar possibilita que nossos praticantes de quarta-feira possam ter um tratamento que eles jamais teriam, já que por mês o custo seria em torno de R$ 300. O valor acaba dificultando o acesso", cita.


O fisioterapeuta Daniel Penha acredita que o convênio com o Senar contribui para deselitizar a equoterapia, ampliando o tratamento para pessoas com poder aquisitivo menor. "Essa parceria veio em boa hora. É gratificante ver a melhora de cada um que vem aqui", afirma.


A psicóloga Andrea ainda ressalta: "Após ver a evolução deles é uma realização e sem esse projeto essa evolução não seria possível".


PROJETO - O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso é o único SENAR do Brasil que oferece o projeto de Equoterapia como uma das atividades do Programa Especial Apoena, que na língua tupi-guarani quer dizer "aquele que enxerga longe". O programa tem por objetivo a qualificação de pessoas com necessidades especiais, estimulando a participação de deficientes nos cursos ofertados pela instituição. Todo Senar segue o programa da instituição sediada em Brasília (SENAR Central), mas tem autonomia para definir projetos próprios. A equoterapia consiste em um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo, dentro de uma abordagem interdisciplinar. As atividades são desenvolvidas pela equipe multidisciplinar.


De acordo com o supervisor do SENAR-MT, Rodrigo Fischdick, responsável projeto de Equoterapia no Estado, a primeira parceria foi firmada em janeiro de 2007 com o Centro Equestre e de Equoterapia de Várzea Grande. Atualmente, o SENAR-MT mantém oito convênios, sendo dois em Cuiabá (Rancho Dourado e o Centro Hípico de Cuiabá), em Santo Antonio do Leverger (parceria com o Sindicato Rural), em Lucas do Rio Verde, em Tangará da Serra, em Sorriso e em Sinop, onde os convênios foram assinados com as Apaes locais. Cada um dos parceiros tem a meta de atender 15 praticantes por mês. Em 2011, por meio dessas parcerias foram oferecidos 3038 atendimentos de Equoterapia, atingindo 1.298 pessoas no Estado.


Assessoria de Comunicação do Sistema FAMATO / SENAR-MTwww.sistemafamato.org.br


 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Autista rouxinol cantante ! !





silvânia mendonça almeida margarida


Quero contar
Cristais e pensamentos
Desabafos e fingimentos
Escuta, sou eu
A lhe cantar e soprar
Ao pé do ouvido.

Escuta , sou eu
Reticente e tímido
Não diga não
Coisas do dia a dia


A partir de hoje,
em todas as manhãs,
Traga-me um pequeno texto livre.
Uma história qualquer
que tenha acontecido
na vida dos normais
quero aprender a soletrar
a história conclusa.


Diga algo de cor
Vem contar por escrito
as coisas que acontecem todos os dias.
O cotidiano de cada um.
Mesmo que pareça
um fato autístico
Faça de conta
Sou rouxinol
Que sou normal.


 Faça de conta
que tudo é uma brincadeira.
Em casa, você arranja
um tempinho,
passa a para minha evidência
para o papel um pouco da vida.




Mas, por hora , escuta, preste atenção,
Por hora, neste instante,
Diga para a borboleta que não sou vazio
Diga ao passarinho que canto nos ninhos
Diga as pedras que estou nos caminhos
Diga as aves que subi em árvores
Diga aos anjos que entrei nas grutas
Às tartarugas que brinquei nos mares
Que ao sol que vi sua sombra
Às estrelas que vi cintilantes
Que vi a proeminência de ser livre
Ao passar por aqui...




Mas, não se esqueça também
que
Autismo é santidade
Pois quando se ama
Na esteira do meu mundo
Toda história de amor brilha
E nunca mais ninguém
vai chorar, nunca mais...




Autista cantante sou
Rouxinol????
Quero contar
Cristalizações
Desabafos
Escuta, sou eu
A lhe cantar
Que da minha maneira
Embora eu sofra
Os vazios são tristes....
Mas sempre verdadeiros.
Registra se puder o meu espanto
E conta a todos o meu encanto...

terça-feira, 1 de maio de 2012

A definição possível de autismo




Dificuldades na linguagem, na interação social e de comportamento 
são as principais características da doença

     O autismo se caracteriza por atraso no desenvolvimento da linguagem e da comunicação por outros meios, como gestos; dificuldades de interação social, comportamentos estereotipados e movimentos repetitivos. Pode se manifestar precocemente, no primeiro ano de vida, ou de modo tardio, após o segundo aniversário. A capacidade intelectual varia desde o déficit cognitivo até um grau de desempenho acima do normal. É comum que haja outras doenças genéticas ou neurológicas associadas ao autismo.
      
     Autismo clássico: É aquele em que a criança parece alheia ao que se passa à sua volta.
Síndrome de Heller: Ou Transtorno Desintegrativo da Infância. Em geral, aparece após os 4 anos e causa retardo grave.
     
     Síndrome de Rhett: Acomete quase sempre as meninas, que, a partir dos 2 anos, apresentam sintomas como movimentos repetitivos com as mãos, isolamento e um quadro degenerativo grave. Hoje já se sabe que é causada por uma anomalia no gene mecp2, e, por isso, na nova classificação, ela deixará de ser considerada uma forma de autismo.

     Síndrome de Asperger: As crianças têm cognição normal ou acima da média, mas apresentam comportamentos e interações características do autismo.

     TID/SOE: Ou Transtornos Invasivos do Desenvolvimento sem Outras Especificações.
Nele,o quadro é mais leve, e dificilmente há outras patologias.

O Globo Saúde
LILIAN FERNANDES

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